terça-feira, julho 18, 2017

Tanto e tão pouco...

De tanto que a noite é escura
Do pouco que é claro o dia
Parece a noite que dura
Tanto mais do que devia

De tanto que os olhos choram
Do pouco que a boca ri
Parece até que demoram
Mais as lágrimas em ti

De tanto que erram as mãos
Do pouco que o ser acerta
Tanto que os sonhos são vãos
Tanto que a alma é deserta

É tanto que o peito sente
Se não é medo, é saudade
Tão poucas vezes contente
Ao sabor da tempestade

15/07/2017
12:07

quinta-feira, julho 13, 2017

Renúncia

Houvesse ainda vontade,
Fosse a vida menos tarde,
Vencesse eu esta mudez...
Se me deixasse a saudade,
Se não fosse tão cobarde,
Mais feliz fora, talvez...

E não andara à deriva
E fora a vida mais viva
E tudo o mais que eu errei
Em tão toscas tentativas...
Houvesse ainda saliva
P'ra dizer o que não sei.

Voltar atrás não se pode
E não há quem nos acorde
Deste torpor que é viver;
Que o vento não me incomode
E a chuva não me recorde
Do que é ser, do que é sofrer.

24/05/2017
23:41

quarta-feira, maio 24, 2017

Exortação.

Compete-nos o histórico momento
Que às outras gerações se tem fintado
De recusar os erros do passado
Com firmeza maior que a do lamento;

É tempo de fazer o julgamento
Sem vergonha de apontar os culpados,
De dissecar memórias e legados,
De rescrever o nosso testamento.

Uma ideia só basta ter presente,
Que como agora o balanço se apura
Do que ontem foi danoso e foi prudente,

O que hoje se projecta, porventura
Será dos nossos filhos réu latente
Para sentenciar em boa altura.

21/01/2017
19:14

domingo, novembro 27, 2016

Poetas banais

Poetas não são o mar
Nem ondas nem temporais,
Poetas são espuma que fica por cima de tudo o que agita...
Nas suas palavras vãs
Os ventos que sopram mais
São ventos de fora mas sopram por dentro da mágica escrita.

Feitiços de luz e de cores, das dores que à mão
Dão corda e dão traços e pintam, desenham na folha sinais
Dos tais artifícios, condão dos indícios, inícios finais.


Poetas não vão ao mar
Como se um rio por nascer
Quisesse brotar sem ferir, sem escorrer p'ra não transbordar
E as suas palavras são
O vento que os faz mover
Nas horas despertas da sede dos tempos que estão p'ra chegar.

Apaga o relógio e os dias na página dois...
Depois da promessa, tropeça no limbo das cordas vocais,
Que os livros abertos são corpos desertos, incertos rivais.



Poetas ao mar no chão,
Palavras são sempre iguais...
Parecem ao longe que são singulares mas são tão banais.

15/11/2016
16:48

sexta-feira, novembro 25, 2016

Exílio

Não sei se estar sozinho me ilumina
E me faz ver as coisas como são,
Se o silêncio revela ao coração
Segredos que o tumulto não me ensina;

Ou se é de estar a sós que se alucina,
Se é disfarçadamente a solidão
Memória sem raiz, sem direcção,
Semente de uma fuga que germina...

Não sei se neste exílio me aprofundo
Ou me imerjo num mundo imaginário
E sou dos meus receios vagabundo...

Não sei se vejo as coisas ao contrário,
Se é de rara clareza que me inundo
Assim num estado de alma solitário.

25/11/2016
10:41

terça-feira, novembro 22, 2016

Hora da Ceia

Que silêncio me acompanha
Na noite dos meus sentidos...
Não há lobos na montanha,
Já não oiço os seus latidos,

Não há fogueiras acesas
Nem cheiro de erva cidreira,
Só estas mãos indefesas
Perdidas numa algibeira.

Que escuridão me ilumina,
Que fome me dá sustento...
E a solidão imagina,
Desta noite o testamento:

Sou herdeiro de um futuro
Que a lua nova ensombreia,
Um pôr do ser prematuro
Antes da hora da ceia.

22/11/2016
20:46

terça-feira, novembro 15, 2016

Fogo, Chuva, Vento

Arde o fogo, queima a terra
Renova-se o chão p'ra tornar a nascer...
Chove a chuva, molha a cinza,
Refresca-se a terra e volta-se a crescer...
Ventam ventos, são lamentos
Levantando o pó das coisas que hão-de ser...
E eu sou fogo e chuva e vento,
Sou eu a ventar, a chover e a arder.

Cruzo mares e desertos,
Tão longe e tão perto de ali me encontrar...
Perco o rumo, encontro nortes
Ao sul desta sorte que teimo em buscar...
Leio mapas, leio a sina,
Sei as coordenadas mas não sei chegar...
Fico à espera doutro dia,
Sem chuva nem vento nem fogo a queimar.

Troca o vento pela brisa
Que afaga o meu rosto e me faz sentir
Que o calor do fogo às vezes
Conforta, acalenta, mostra-me aonde ir;
Chuva é fonte e mata a sede
Do meu horizonte para o atingir:
Chove a chuva, venta o vento,
Queima o fogo em mim p'ra tornar a partir.

05/11/2016
04:47