Na areia escrevo…
Em brados contidos, conto as vagas que passam,
E as que ficam…
As que não passam porque não podem passar,
E até as que no mar alto morrem sem beijar a areia
Em que escrevo.
Esta areia que foi rocha,
E este sal que foi rochedo,
E tudo o mais que foi um ponto de luz vadia
Vogando pela imensidão…
Todos eles são vivos.
São vidas que vivem mas não morrem…
São as areias com que vivo esta vida de tantas vidas…
Esses finos grãos com que escrevo as mais belas histórias
E os mais trágicos contos,
Condimentados de sal, que o traz o mar…
Esse mesmo mar que beija, incansável,
Este meu papel granulado em redijo a vida de tantas vidas
E que com todas vivo…
Ah, se eu pudesse…
Mas não posso viver o mar…
Pois se o pudesse, deixaria de o haver,
E não mais poderia escrever em contos vivos,
Salgados da maresia,
A poesia que escrevo nesta areia.
E que vivo…
21/10/2004
sexta-feira, setembro 28, 2007
terça-feira, setembro 25, 2007
Jogging/Mais tarde/À noite
Jogging.
A vida a transpirar através dos meus poros…
Acácias e cedros que pontuam a demora…
Fingindo não me importar,
Amputo o polegar esquerdo,
(Que o direito às vezes dá jeito,)
E com o pedaço de carne ainda quente outra mão,
Com a unha roída até à exaustão,
Quase que sinto um esgar de adrenalina,
Uma ameaça de tenra excitação
Que percorre o meu sistema nervoso central imobilizando os pensamentos.
E depois,
Tão lesta quanto à chegada,
Esvai-se a excitação,
E de esfíncter involuntariamente contraído,
Retorno.
(Mais tarde…)
Uma gota de suor,
À descoberta dos meandros da minha face,
Percorre a distância que separa a têmpora do lábio,
Para aí repousar até que a língua,
Contrafeita,
Se resigne a sorvê-la entre dentes.
(Ou então é a parte de trás do pulso que a amacia contra a pele ardente.)
(À noite…)
ZZZZZ…
(Devia tratar da minha onicofagia obsessiva…)
23/09/2007
23:11
A vida a transpirar através dos meus poros…
Acácias e cedros que pontuam a demora…
Fingindo não me importar,
Amputo o polegar esquerdo,
(Que o direito às vezes dá jeito,)
E com o pedaço de carne ainda quente outra mão,
Com a unha roída até à exaustão,
Quase que sinto um esgar de adrenalina,
Uma ameaça de tenra excitação
Que percorre o meu sistema nervoso central imobilizando os pensamentos.
E depois,
Tão lesta quanto à chegada,
Esvai-se a excitação,
E de esfíncter involuntariamente contraído,
Retorno.
(Mais tarde…)
Uma gota de suor,
À descoberta dos meandros da minha face,
Percorre a distância que separa a têmpora do lábio,
Para aí repousar até que a língua,
Contrafeita,
Se resigne a sorvê-la entre dentes.
(Ou então é a parte de trás do pulso que a amacia contra a pele ardente.)
(À noite…)
ZZZZZ…
(Devia tratar da minha onicofagia obsessiva…)
23/09/2007
23:11
sábado, setembro 22, 2007
terça-feira, setembro 18, 2007
Carta de amor.
«Algures no Mar do Norte, 6 de Fevereiro de 2004
Querida Elisa.
Já mal posso suportar os gritos estridentes das gaivotas e a ondulação incessante do mar. Na minha mente, existe apenas um propósito: regressar o mais depressa possível para o nosso leito e beijar-te como se não houvesse amanhã. O meu espírito martiriza-se ao recordar-se de que só no fim do mês nos poderemos reencontrar. Sinto-me traído por Deus, por permitir que dois corações tão enamorados se separem desta maneira.
A pescaria tem vindo a diminuir. Ontem já só apanhámos 400kg de bacalhau e 500kg de atum. O mar mostra-se-nos ingrato, e um dos motores avariou irreversivelmente. Cada içar das redes, cada congelar das postas já cortadas, enfim, cada momento que passo neste maldito barco me faz delirar. Só penso em ti, de manhã até à noite, e até em sonhos a tua imagem surge como um escape à rotina diária.
O Chico Rosa vai-se embora hoje, e é por ele que envio esta carta. Ele, sim, é que tem sorte… Não passou senão três meses neste barco, enquanto que eu há já quase um ano que não vejo as tuas doces feições. Sonho a cada segundo com a tarde do dia 29, quando o barco ancorar no porto, e eu correr desalmadamente para os teus braços, e te amar como nunca. Já só vejo o teu sorriso brilhante, os teus lábios rubros, os teus olhos luzidios e o teu calor reconfortante. Para mim, és tudo o que importa…
O contramestre já deu a ordem… Tenho que ir içar as redes mais uma vez. Vingar-me-ei de todo o tempo perdido durante o resto das nossas vidas, amando-te sem limites ou barreiras.
Amo-te louca e profundamente!
Beijos e abraços deste teu,
Jorge Morais »
Querida Elisa.
Já mal posso suportar os gritos estridentes das gaivotas e a ondulação incessante do mar. Na minha mente, existe apenas um propósito: regressar o mais depressa possível para o nosso leito e beijar-te como se não houvesse amanhã. O meu espírito martiriza-se ao recordar-se de que só no fim do mês nos poderemos reencontrar. Sinto-me traído por Deus, por permitir que dois corações tão enamorados se separem desta maneira.
A pescaria tem vindo a diminuir. Ontem já só apanhámos 400kg de bacalhau e 500kg de atum. O mar mostra-se-nos ingrato, e um dos motores avariou irreversivelmente. Cada içar das redes, cada congelar das postas já cortadas, enfim, cada momento que passo neste maldito barco me faz delirar. Só penso em ti, de manhã até à noite, e até em sonhos a tua imagem surge como um escape à rotina diária.
O Chico Rosa vai-se embora hoje, e é por ele que envio esta carta. Ele, sim, é que tem sorte… Não passou senão três meses neste barco, enquanto que eu há já quase um ano que não vejo as tuas doces feições. Sonho a cada segundo com a tarde do dia 29, quando o barco ancorar no porto, e eu correr desalmadamente para os teus braços, e te amar como nunca. Já só vejo o teu sorriso brilhante, os teus lábios rubros, os teus olhos luzidios e o teu calor reconfortante. Para mim, és tudo o que importa…
O contramestre já deu a ordem… Tenho que ir içar as redes mais uma vez. Vingar-me-ei de todo o tempo perdido durante o resto das nossas vidas, amando-te sem limites ou barreiras.
Amo-te louca e profundamente!
Beijos e abraços deste teu,
Jorge Morais »
quarta-feira, agosto 08, 2007
O avesso das quimeras.
Acidental limalha
No avesso das quimeras;
Levo o pulso à navalha
E a música às estrelas.
Sou porto desmaiado
E coliseu das feras,
De gatilho apertado,
Não posso mais vencê-las.
Às vezes as histórias
Tropeçam sem aviso,
Debatem-se em memórias
Que invento e improviso.
E as minhas mãos sinceras
Dão pombos às migalhas,
No avesso das quimeras
Vive o Deus das mortalhas.
Gargantas enleadas
Em gravatas de dedos,
E canções derrotadas
À luz das desventuras,
No avesso das quimeras
Desvendo os meus segredos
Em compassos de espera
De frágeis partituras.
06/08/2007
21:21
No avesso das quimeras;
Levo o pulso à navalha
E a música às estrelas.
Sou porto desmaiado
E coliseu das feras,
De gatilho apertado,
Não posso mais vencê-las.
Às vezes as histórias
Tropeçam sem aviso,
Debatem-se em memórias
Que invento e improviso.
E as minhas mãos sinceras
Dão pombos às migalhas,
No avesso das quimeras
Vive o Deus das mortalhas.
Gargantas enleadas
Em gravatas de dedos,
E canções derrotadas
À luz das desventuras,
No avesso das quimeras
Desvendo os meus segredos
Em compassos de espera
De frágeis partituras.
06/08/2007
21:21
segunda-feira, agosto 06, 2007
Pára.
Sinto à flor da pele um chamamento,
Elevado rumor de prenúncios infaustos,
Chama esmorecida, aragem lúgubre...
E uma bala de reduzido calibre com que estudo a balística da existência
A galopar impaciente um carreiro longínquo,
Convencida de uma ingénua audácia enquanto não alcança o muro,
As minhas lágrimas.
Graves, retorquindo em estrondos inócuos, voam morteiros
E os canhões são mais uma vez carregados de pólvora seca.
É uma guerra já perdida, esta de saber existir.
Caem os anjos na Terra, de asas amputadas, e sorriem,
Clamando entre dentes a sua desfeita quimera de alcançar a realidade.
Sinto um chamamento, uma mão que se estende do fundo do tempo,
Os longos e esguios dedos arranhando a minha consciência
Imperturbáveis.
E o arco-íris volta a nascer no interstício da candeia de alumia o meu choro,
Com as cores desorganizadas,
As tonalidades esbatidas,
E sem o famigerado pote de ouro no cobro da sua extensão.
(Na era nuclear, as guerras não se fazem com homens,
Mas com iminências de destruição maciça.)
Alguém dispara uma flecha, como que a disparar a própria morte,
E depois pousa relutantemente o arco e dorme mais uma sesta.
Jurei que atenderia ao chamamento.
Era o mínimo que podia fazer.
Deixei que o meu santuátio fosse violado,
Entreguei a mente à desilusão,
E prostrei-me diante Deus.
"Pára."
06/08/2007
2:18
Elevado rumor de prenúncios infaustos,
Chama esmorecida, aragem lúgubre...
E uma bala de reduzido calibre com que estudo a balística da existência
A galopar impaciente um carreiro longínquo,
Convencida de uma ingénua audácia enquanto não alcança o muro,
As minhas lágrimas.
Graves, retorquindo em estrondos inócuos, voam morteiros
E os canhões são mais uma vez carregados de pólvora seca.
É uma guerra já perdida, esta de saber existir.
Caem os anjos na Terra, de asas amputadas, e sorriem,
Clamando entre dentes a sua desfeita quimera de alcançar a realidade.
Sinto um chamamento, uma mão que se estende do fundo do tempo,
Os longos e esguios dedos arranhando a minha consciência
Imperturbáveis.
E o arco-íris volta a nascer no interstício da candeia de alumia o meu choro,
Com as cores desorganizadas,
As tonalidades esbatidas,
E sem o famigerado pote de ouro no cobro da sua extensão.
(Na era nuclear, as guerras não se fazem com homens,
Mas com iminências de destruição maciça.)
Alguém dispara uma flecha, como que a disparar a própria morte,
E depois pousa relutantemente o arco e dorme mais uma sesta.
Jurei que atenderia ao chamamento.
Era o mínimo que podia fazer.
Deixei que o meu santuátio fosse violado,
Entreguei a mente à desilusão,
E prostrei-me diante Deus.
"Pára."
06/08/2007
2:18
sexta-feira, agosto 03, 2007
A (In)certeza - (ou Quantos Degraus Para o Abismo).
Faz-me falta a certeza.
Não sou o passado nem reconheço o presente,
E o futuro… a incerteza.
É frio, mas é certo.
Acabo de tropeçar no que procurava.
Como erguer-me de novo?
28/01/2006
19:55
Não sou o passado nem reconheço o presente,
E o futuro… a incerteza.
É frio, mas é certo.
Acabo de tropeçar no que procurava.
Como erguer-me de novo?
28/01/2006
19:55
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