Vejo o mundo
De óculos escuros
Deste fundo
Escondido entre braços
No vaivém dos meus passos
Vejo tectos, vejo muros
No vaivém dos meus passos
Só me confundo
Mais
Rasgo a morte
Deito-me ao relento
Sigo à sorte
Perdido dos dias
No rumor de um sentimento
Vejo paredes vazias
No rumor de um sentimento
Só perco o Norte
Mais
Rumo ao vento
O sinal vermelho
É cinzento
Como a minha estrada
No sopé da madrugada
Vejo gárgulas no espelho
No sopé da madrugada
Morre o alento
Mais
Mais vale ser
Um ser extraordinário
P’ra poder ver
Ler as vidas ao contrário
Sem receber
Férias pagas e um salário
Somos todos extraordinários
P’r’a fogueira com os dicionários
Basta de conclaves e plenários
Sejamos vários
Mais
19/10/2007
20:47
segunda-feira, outubro 22, 2007
domingo, outubro 21, 2007
Tripla.
I
As Palavras
Nos abismos que o poema dilacera e acalenta
E nos sismos improváveis dessa espera desatenta
Vivem lírios de palavras resgatadas ao bafio
Como círios que alumiam as estradas do vazio
II
Os Números
Moram números avulsos nos meandros dos poemas
Em inúmeros impulsos que se despem das algemas
Quando a rábula transpira no pulsar das entrelinhas
E essa fábula respira matemáticas vizinhas
III
O Poema
Certas noites libertinas de incertezas naturais
Seguem pares concubinas de naturezas duais
Numa marcha lesta infinda de preceitos radicais
E o poema enfim deslinda os conceitos litorais
19/10/2007
2:18
As Palavras
Nos abismos que o poema dilacera e acalenta
E nos sismos improváveis dessa espera desatenta
Vivem lírios de palavras resgatadas ao bafio
Como círios que alumiam as estradas do vazio
II
Os Números
Moram números avulsos nos meandros dos poemas
Em inúmeros impulsos que se despem das algemas
Quando a rábula transpira no pulsar das entrelinhas
E essa fábula respira matemáticas vizinhas
III
O Poema
Certas noites libertinas de incertezas naturais
Seguem pares concubinas de naturezas duais
Numa marcha lesta infinda de preceitos radicais
E o poema enfim deslinda os conceitos litorais
19/10/2007
2:18
sexta-feira, outubro 19, 2007
Subamos (a escada)...
Então subamos
As escadas que o amor nos impinge
Em corrida veloz como quem finge
Ter pressa de chegar à sua porta
Senão vejamos
São sempre águas moles em pedras duras
Em rampas percorridas às escuras
Em busca da paixão que ali jaz morta
Trocam-se as voltas
Num rodopio que joga às escondidas
Por becos, praças, ruas e avenidas
Com esperança de tropeçar na verdade
Com frases soltas
Constroem-se rimas ao desbarato
E soltam-se as pedras do meu sapato
P’ra “dar o corte” com impunidade
Portões cerrados
Após vender negativas em saldo
Sem sequer dar espaço p’ra o rescaldo
Abafam-se as memórias num caixote
Braços atados
Atrás das costas destas contingências
E nem se leva a cabo diligências
Com medo de afoitar mais o chicote
Então subamos
Mais uma vez por essa escadaria
Façamos dela o pão de cada dia
Voando entre os degraus a derrapar
E nisto andamos
Uma vida inteira atrás duma vida
Que nos preencha o feitio e a medida
Sem sequer aprender o que é amar
15/10/2007
21:44
As escadas que o amor nos impinge
Em corrida veloz como quem finge
Ter pressa de chegar à sua porta
Senão vejamos
São sempre águas moles em pedras duras
Em rampas percorridas às escuras
Em busca da paixão que ali jaz morta
Trocam-se as voltas
Num rodopio que joga às escondidas
Por becos, praças, ruas e avenidas
Com esperança de tropeçar na verdade
Com frases soltas
Constroem-se rimas ao desbarato
E soltam-se as pedras do meu sapato
P’ra “dar o corte” com impunidade
Portões cerrados
Após vender negativas em saldo
Sem sequer dar espaço p’ra o rescaldo
Abafam-se as memórias num caixote
Braços atados
Atrás das costas destas contingências
E nem se leva a cabo diligências
Com medo de afoitar mais o chicote
Então subamos
Mais uma vez por essa escadaria
Façamos dela o pão de cada dia
Voando entre os degraus a derrapar
E nisto andamos
Uma vida inteira atrás duma vida
Que nos preencha o feitio e a medida
Sem sequer aprender o que é amar
15/10/2007
21:44
quarta-feira, outubro 10, 2007
Dias e Noites (Parte II).
A minha vida dera uma volta de cento e oitenta graus no final do Verão seguinte, quando deixei a terra onde sempre vivera para prosseguir estudos. Após uma jigajoga de exames e candidaturas e viagens para cá e para lá e matrículas, estava agora alojado numa ruela estreita, de chão empedrado, a cinco minutos a pé da minha faculdade. A casa, visivelmente velha, erguia-se em quatro estreitos andares, ligados entre si por uma escadaria de madeira que rangia sonoramente a cada degrau que pisava, e, mais uma vez, ficara no quarto do primeiro andar. Em frente, morava uma senhora cujos anos de vida se podiam estimar pelo fino cabelo grisalho que costumava trazer solto, e pelas feições sulcadas por incontáveis rugas que, apesar de tudo, lhe conferiam uma graça muito particular. Era costume vê-la à janela a costurar, ou simplesmente com os escassos transeuntes que passavam pela ruela, alguns deles vizinhos e velhos amigos da sua geração.
Quando me via assomar à janela, o seu cumprimento era já sabido, dizendo numa voz calorosa e com pronúncia marcadamente bairrista:
- Oh meu menino! Então como está? Está tudo bem? E a maninha? E os paizinhos? E os estudos?
Eu limitava-me a responder ao que me era perguntado, sempre com um franco sorriso esboçado nos lábios, correspondido pela expressão sorridente da senhora, que devo frisar nunca ter visto de diferente forma. Vivia, deste modo, num ambiente acolhedor e quase familiar, embora fosse constante a sensação de perda que me acompanhava desde a desditosa noite…
* * * * *
Recordo-me com bastante nitidez da atarefada noite em que arrumei as minhas coisas, na véspera da minha partida para a universidade. O meu quarto parecia um cenário de guerra, com estantes vazias e pilhas de roupa espalhadas numa alternância caótica, e gavetas abertas onde já pouca coisa restava. Tinha já duas malas cheias, e ainda tanto para empacotar e acomodar noutras tantas, e no epicentro daquela custosa azáfama, lembrei-me de algo extremamente importante.
Abri a gaveta da minha mesa-de-cabeceira e vasculhei ansiosamente pela tralha acumulada: cartas avulsas; um ou dois livros de poesia; um relógio de corda de pulseira de couro preta que parara havia alguns anos; um caderno onde dava largas à criatividade nas longas noites sem dormir; o manual de instruções da minha aparelhagem; um álbum de fotos antigas… e era tudo.
Apanhado de surpresa, retirei a gaveta dos eixos e esvaziei-a em cima da cama, mas nada mais encontrei do que aquilo que já encontrara. Então percorri, uma a uma, todas as gavetas e prateleiras do quarto, todos os recantos possíveis e imagináveis, sentido um desespero crescente à medida que ficava sem opções para procurar. Mas não podia ser; todas as noites eu lia e relia aquela frase, aquelas tão vagas e distantes palavras que me ofereciam a sombra de uma esperança desalentada, e todas as noites a guardava religiosamente na gaveta agora tombada no chão sujo do quarto. E naquela noite, na véspera da talvez mais importante viagem da minha vida, da qual não regressaria tão cedo, a preciosa folha parecia ter-se evaporado.
Sentei-me, frustrado, no colchão já despido, afastando com desprezo o conteúdo despejado da gaveta, que acabou por cair igualmente no chão. Aí, senti os olhos a humedecerem-se e, com os braços cansados a pender para fora da cama, chorei.
* * * * *
Quando digo que a minha vida sofrera uma viragem de cento e oitenta graus, para além de todas as óbvias mudanças a que foi sujeita com a minha saída de casa, refiro-me em concreto ao ritual binário em que ela se havia convertido tempos antes. Agora, em vez de dias preenchidos pela magia daquela que tão impiedosamente partira, tinha noites inteiras de sonhos habitados pela sua reconfortante imagem, e que acabavam sempre por desembocar naquela clareira longínqua do mundo. Por outro lado, os meus dias eram agora caracterizados pela constante presença de gatos que vagueavam sem rumo pelas pedras toscas da minha rua, havendo um que se assemelhava assustadoramente àquele que habitualmente contemplava através da fresta agora fechada da minha janela, nas noites sem sono que faziam agora parte do passado.
A verdade é que, desde a noite na clareira e até à minha partida, nunca mais encontrara o negro felino a deambular pela rua agora deserta em frente à janela do meu antigo quarto. Era um facto extraordinário, e que permanecia no meu pensamento como um mistério inexplicável, assim como aquela noite estrelada em que me perdera na vereda a caminho da clareira e encontrara a folha de papel pregada ao tronco rugoso daquela árvore anciã, a folha cujo paradeiro me era agora desconhecido. A réstia de alento que ainda sobrava dentro de mim devia-se sobretudo à memória da mensagem implícita naquela linha escrita por mim numa serena tarde primaveril, e que reencontrara inesperadamente numa escura noite de estio.
* * * * *
Houve, numa das noites mais frias de que tenho memória, um sonho que me deixou ao mesmo tempo confuso e confiante, como se aquilo que tinha presenciado fosse demasiado fantástico para poder ser real, embora na altura me tivesse parecido totalmente credível. Tinha-me deitado depois de uma noite no café da praça com dois colegas, e a lua ia já bem alta no céu quando cerrei os olhos cansados.
Estava a acordar após uma noite bem dormida, e espreguicei-me vigorosamente, atirando com o gesto a almofada para a alcatifa azul que cobria todo o chão do quarto. Os pequeninos orifícios na persiana mal fechada permitiam que uma diminuta réstia de claridade alumiasse fracamente o espaço contíguo da divisão. Ainda ensonado, levantei-me e abri o estore. A janela da minha idosa vizinha encontrava-se ainda fechada, pois devia ser bem cedo, tão cedo que os gatos ainda vasculhavam os recantos da rua em busca de algum resquício comestível.
Voltei para dentro e, numa rotina repetida tantas vezes, tratei de me lavar e vestir e alimentar. Terminadas essas tarefas, peguei na minha mochila e desci, sendo recebido à porta por uma aragem fresca tipicamente matutina. Algumas, mas poucas, nuvens escondiam agora o disco solar, mergulhando a rua numa imperceptível sombra matinal. Nesse momento, apercebi-me de que a porta da minha vizinha estava escancarada, embora a sua janela ainda não tivesse sido aberta em sinal de que já acordara.
Estranhando aquela mudança na rotina diária da senhora, decidi assomar-me à sua porta, chamando a meia voz pelo seu nome. Tornei a chamar e, como não obtive resposta, subi as escadas que conduziam à porta da sua cozinha. Esta encontrava-se igualmente aberta e, por isso, não antes de voltar a chamar pela senhora, entrei sem hesitação na parca divisão.
* * * * *
Sempre me intrigou a natureza dos sonhos. De tantos fenómenos naturais a que estamos sujeitos durante toda uma vida, os sonhos são, de facto, uma extraordinária manifestação cuja compreensão está longe de ser completa. Por muita teoria que se debite sobre as infindáveis ramificações desta temática, não há uma que satisfaça completamente a minha aguçada forma de entendimento. Parece que cada passo em direcção ao seu desvendar último nos deixa novamente no ponto de partida, ao sermos confrontados com determinadas situações que, simplesmente, não se encaixam.
A mim, quer-me parecer que o sonho é uma necessidade quase comparável à respiração ou à nutrição. É algo inerente à nossa natureza humana, imaginativa e invariavelmente insatisfeita. É algo que nos permite voar além das nossas barreiras, algo que nos leva muito além de qualquer limite que a realidade seca nos tente forçosamente impor. É, afinal, mais um mecanismo de escape e, ao mesmo tempo, uma forma natural de poesia, uma composição lírica que mistura desejos, medos e recordações e deles constrói uma acção animada repleta de códigos, mensagens escondidas e, ao fim ao cabo, de um pouco da nossa própria essência.
Aquele sonho foi deveras o mais fantástico de que tenho memória, e ainda hoje não tenho explicação, quer para a sua origem, quer para o que ele veio a desencadear. Mas uma coisa é certa, estar-lhe-ei eternamente grato.
* * * * *
Lancei um relance rápido à divisão criteriosamente arrumada e asseada, não observando nada fora do vulgar. Sobre o fogão ainda quente, mas desligado, um grande púcaro de alumínio gasto fumegava, exalando um agradável e muito estimulante aroma a ervas e limão. Sobre a mesa, duas chávenas de chá, certamente pintadas à mão, repousavam vazias nos respectivos pires de barro vidrado. Um açucareiro e um frasco de mel de rosmaninho completavam o espólio, todo assente sobre uma toalha de linho com acabamentos bordados, cujas franjas caíam no assento das duas cadeiras de madeira envernizada que assinalavam os lugares à mesa.
Atraído pela familiar apresentação, espreitei para dentro da chaleira ainda a escalda, e reconheci imediatamente o aroma: bela-luísa e camomila. Sem saber bem porquê, peguei-lhe e verti o líquido generosamente para as duas chávenas, pousando o púcaro numa base de azulejo que também se encontrava sobre a mesa. Depois, sentei-me numa das cadeiras, coloquei duas colheres de mel na chávena à minha frente, e ali fiquei, absorto em pensamentos diversos, a mexer cuidadosamente o aromático chá.
Nem me apercebi quando a senhora entrou na cozinha, o belo cabelo atado numa trança que lhe chegava quase a meio das costas. Só a vi quando se sentou à minha frente e, num gesto tão gracioso quanto a sua idade lhe permitia, colocou duas colheres de açúcar na sua chávena. De seguida, levou-a à boca, dizendo:
- Mas que delícia…
Aparentemente, a minha presença não surtira qualquer surpresa na senhora, que continuou a bebericar a saborosa infusão alheia a tudo o resto. Só quando na sua chávena sobrava apenas um resto irrisório de líquido e se levantou para verter mais um pouco é que se dirigiu a mim, falando numa voz terna e suave:
- Então, meu menino, está tudo bem?
Um pouco embaraçado, respondi numa voz rouca de quem acordara havia pouco tempo:
- Oh, sim, está tudo bem, obrigado. Desculpe ter entrado assim sem avisar, mas vi a porta aberta e pensei…
- Não faz mal. Estava à sua espera. Tenho uma coisa para si.
- Para mim?
Sem responder, acabou de verter o chá e saiu. Demorou cerca de dois minutos, durante os quais fiquei nervosamente sentado, com a chávena fumegante ainda cheia sobre a mesa. Quando voltou, trazia na mão um caderno de capa preta e aspecto bastante usado. Tinha posto os óculos de massa escura, que trazia caracteristicamente quase à ponta do nariz. Sentou-se de novo à minha frente e perguntou:
- Então não bebe o chazinho? Está tão bom… Faz muito bem à garganta e ao estômago.
- Bebo sim, obrigado. Estou só à espera que arrefeça mais um pouco.
- Mas olhe que o chazinho quentinho é que faz bem.
Olhei a superfície límpida do líquido e levei-o aos lábios, sentindo uma sensação revigorante de calor a confortar-me por dentro. Dei dois ou três goles, pousando em seguida a chávena sobre o pires morno. Fiquei, então, a fitar os olhos pequenos e luzidios da senhora, azuis como o oceano profundo. Então, estendeu-me o caderno, e fiquei abismado ao reconhecê-lo. Aquele caderno, onde escrevera tantas cartas e poemas de amor, e que ficara perdido na clareira perto da minha casa até àquele momento. Mas como podia ser?
Como que adivinhando a minha incredulidade, a senhora replicou:
- É seu, não é? Devia ter mais cuidado com essas coisas.
Estava demasiado atónito para poder articular qualquer resposta. Desfolhei-o rapidamente, parando numa página que me deixou incalculavelmente mais estupefacto. Estava escrita a tinta azul, numa caligrafia mais ou menos aprumada, e podia ler-se na primeira linha: «Estarei sempre à tua espera». Olhei a senhora com um ar inquiridor, ao que ela prontamente respondeu:
- Esse poema é muito bonito. É para alguém especial, não é?
Aquilo era demais para a minha frágil estrutura, demais para a minha limitada compreensão. Que sentido, por mais remoto que fosse, poderia aquilo fazer? Interrompendo-me os pensamentos, que voavam apressados num remoinho de ideias tolas e inconsistentes, a idosa senhora ergueu-se da cadeira, dirigiu-se até junto de mim e, com as suas mãos nas minhas, fechou o caderno no meu colo e disse, fitando-me com os seus intensos olhos vítreos:
- O meu menino devia mostrar esse poema à menina para quem o escreveu. Tenho a certeza que ela ia gostar muito.
Nesse momento, um ruído estranho àquele cenário soou na minha cabeça. Aí, percebi tudo, ao reconhecer o toque inconveniente do meu despertador. Tudo não passava de um magnífico sonho do qual não tardaria a acordar. “Que pena”, pensei, “estava a ser tão bom…”
Já só tive tempo de ouvir algumas palavras antes de acordar e desligar resignadamente o despertador, e foram elas:- Olhe que eu já vivi muito, e sei o que digo: um amor assim é difícil de encontrar. Vá em frente com coragem, meu menino. Força.
Quando me via assomar à janela, o seu cumprimento era já sabido, dizendo numa voz calorosa e com pronúncia marcadamente bairrista:
- Oh meu menino! Então como está? Está tudo bem? E a maninha? E os paizinhos? E os estudos?
Eu limitava-me a responder ao que me era perguntado, sempre com um franco sorriso esboçado nos lábios, correspondido pela expressão sorridente da senhora, que devo frisar nunca ter visto de diferente forma. Vivia, deste modo, num ambiente acolhedor e quase familiar, embora fosse constante a sensação de perda que me acompanhava desde a desditosa noite…
* * * * *
Recordo-me com bastante nitidez da atarefada noite em que arrumei as minhas coisas, na véspera da minha partida para a universidade. O meu quarto parecia um cenário de guerra, com estantes vazias e pilhas de roupa espalhadas numa alternância caótica, e gavetas abertas onde já pouca coisa restava. Tinha já duas malas cheias, e ainda tanto para empacotar e acomodar noutras tantas, e no epicentro daquela custosa azáfama, lembrei-me de algo extremamente importante.
Abri a gaveta da minha mesa-de-cabeceira e vasculhei ansiosamente pela tralha acumulada: cartas avulsas; um ou dois livros de poesia; um relógio de corda de pulseira de couro preta que parara havia alguns anos; um caderno onde dava largas à criatividade nas longas noites sem dormir; o manual de instruções da minha aparelhagem; um álbum de fotos antigas… e era tudo.
Apanhado de surpresa, retirei a gaveta dos eixos e esvaziei-a em cima da cama, mas nada mais encontrei do que aquilo que já encontrara. Então percorri, uma a uma, todas as gavetas e prateleiras do quarto, todos os recantos possíveis e imagináveis, sentido um desespero crescente à medida que ficava sem opções para procurar. Mas não podia ser; todas as noites eu lia e relia aquela frase, aquelas tão vagas e distantes palavras que me ofereciam a sombra de uma esperança desalentada, e todas as noites a guardava religiosamente na gaveta agora tombada no chão sujo do quarto. E naquela noite, na véspera da talvez mais importante viagem da minha vida, da qual não regressaria tão cedo, a preciosa folha parecia ter-se evaporado.
Sentei-me, frustrado, no colchão já despido, afastando com desprezo o conteúdo despejado da gaveta, que acabou por cair igualmente no chão. Aí, senti os olhos a humedecerem-se e, com os braços cansados a pender para fora da cama, chorei.
* * * * *
Quando digo que a minha vida sofrera uma viragem de cento e oitenta graus, para além de todas as óbvias mudanças a que foi sujeita com a minha saída de casa, refiro-me em concreto ao ritual binário em que ela se havia convertido tempos antes. Agora, em vez de dias preenchidos pela magia daquela que tão impiedosamente partira, tinha noites inteiras de sonhos habitados pela sua reconfortante imagem, e que acabavam sempre por desembocar naquela clareira longínqua do mundo. Por outro lado, os meus dias eram agora caracterizados pela constante presença de gatos que vagueavam sem rumo pelas pedras toscas da minha rua, havendo um que se assemelhava assustadoramente àquele que habitualmente contemplava através da fresta agora fechada da minha janela, nas noites sem sono que faziam agora parte do passado.
A verdade é que, desde a noite na clareira e até à minha partida, nunca mais encontrara o negro felino a deambular pela rua agora deserta em frente à janela do meu antigo quarto. Era um facto extraordinário, e que permanecia no meu pensamento como um mistério inexplicável, assim como aquela noite estrelada em que me perdera na vereda a caminho da clareira e encontrara a folha de papel pregada ao tronco rugoso daquela árvore anciã, a folha cujo paradeiro me era agora desconhecido. A réstia de alento que ainda sobrava dentro de mim devia-se sobretudo à memória da mensagem implícita naquela linha escrita por mim numa serena tarde primaveril, e que reencontrara inesperadamente numa escura noite de estio.
* * * * *
Houve, numa das noites mais frias de que tenho memória, um sonho que me deixou ao mesmo tempo confuso e confiante, como se aquilo que tinha presenciado fosse demasiado fantástico para poder ser real, embora na altura me tivesse parecido totalmente credível. Tinha-me deitado depois de uma noite no café da praça com dois colegas, e a lua ia já bem alta no céu quando cerrei os olhos cansados.
Estava a acordar após uma noite bem dormida, e espreguicei-me vigorosamente, atirando com o gesto a almofada para a alcatifa azul que cobria todo o chão do quarto. Os pequeninos orifícios na persiana mal fechada permitiam que uma diminuta réstia de claridade alumiasse fracamente o espaço contíguo da divisão. Ainda ensonado, levantei-me e abri o estore. A janela da minha idosa vizinha encontrava-se ainda fechada, pois devia ser bem cedo, tão cedo que os gatos ainda vasculhavam os recantos da rua em busca de algum resquício comestível.
Voltei para dentro e, numa rotina repetida tantas vezes, tratei de me lavar e vestir e alimentar. Terminadas essas tarefas, peguei na minha mochila e desci, sendo recebido à porta por uma aragem fresca tipicamente matutina. Algumas, mas poucas, nuvens escondiam agora o disco solar, mergulhando a rua numa imperceptível sombra matinal. Nesse momento, apercebi-me de que a porta da minha vizinha estava escancarada, embora a sua janela ainda não tivesse sido aberta em sinal de que já acordara.
Estranhando aquela mudança na rotina diária da senhora, decidi assomar-me à sua porta, chamando a meia voz pelo seu nome. Tornei a chamar e, como não obtive resposta, subi as escadas que conduziam à porta da sua cozinha. Esta encontrava-se igualmente aberta e, por isso, não antes de voltar a chamar pela senhora, entrei sem hesitação na parca divisão.
* * * * *
Sempre me intrigou a natureza dos sonhos. De tantos fenómenos naturais a que estamos sujeitos durante toda uma vida, os sonhos são, de facto, uma extraordinária manifestação cuja compreensão está longe de ser completa. Por muita teoria que se debite sobre as infindáveis ramificações desta temática, não há uma que satisfaça completamente a minha aguçada forma de entendimento. Parece que cada passo em direcção ao seu desvendar último nos deixa novamente no ponto de partida, ao sermos confrontados com determinadas situações que, simplesmente, não se encaixam.
A mim, quer-me parecer que o sonho é uma necessidade quase comparável à respiração ou à nutrição. É algo inerente à nossa natureza humana, imaginativa e invariavelmente insatisfeita. É algo que nos permite voar além das nossas barreiras, algo que nos leva muito além de qualquer limite que a realidade seca nos tente forçosamente impor. É, afinal, mais um mecanismo de escape e, ao mesmo tempo, uma forma natural de poesia, uma composição lírica que mistura desejos, medos e recordações e deles constrói uma acção animada repleta de códigos, mensagens escondidas e, ao fim ao cabo, de um pouco da nossa própria essência.
Aquele sonho foi deveras o mais fantástico de que tenho memória, e ainda hoje não tenho explicação, quer para a sua origem, quer para o que ele veio a desencadear. Mas uma coisa é certa, estar-lhe-ei eternamente grato.
* * * * *
Lancei um relance rápido à divisão criteriosamente arrumada e asseada, não observando nada fora do vulgar. Sobre o fogão ainda quente, mas desligado, um grande púcaro de alumínio gasto fumegava, exalando um agradável e muito estimulante aroma a ervas e limão. Sobre a mesa, duas chávenas de chá, certamente pintadas à mão, repousavam vazias nos respectivos pires de barro vidrado. Um açucareiro e um frasco de mel de rosmaninho completavam o espólio, todo assente sobre uma toalha de linho com acabamentos bordados, cujas franjas caíam no assento das duas cadeiras de madeira envernizada que assinalavam os lugares à mesa.
Atraído pela familiar apresentação, espreitei para dentro da chaleira ainda a escalda, e reconheci imediatamente o aroma: bela-luísa e camomila. Sem saber bem porquê, peguei-lhe e verti o líquido generosamente para as duas chávenas, pousando o púcaro numa base de azulejo que também se encontrava sobre a mesa. Depois, sentei-me numa das cadeiras, coloquei duas colheres de mel na chávena à minha frente, e ali fiquei, absorto em pensamentos diversos, a mexer cuidadosamente o aromático chá.
Nem me apercebi quando a senhora entrou na cozinha, o belo cabelo atado numa trança que lhe chegava quase a meio das costas. Só a vi quando se sentou à minha frente e, num gesto tão gracioso quanto a sua idade lhe permitia, colocou duas colheres de açúcar na sua chávena. De seguida, levou-a à boca, dizendo:
- Mas que delícia…
Aparentemente, a minha presença não surtira qualquer surpresa na senhora, que continuou a bebericar a saborosa infusão alheia a tudo o resto. Só quando na sua chávena sobrava apenas um resto irrisório de líquido e se levantou para verter mais um pouco é que se dirigiu a mim, falando numa voz terna e suave:
- Então, meu menino, está tudo bem?
Um pouco embaraçado, respondi numa voz rouca de quem acordara havia pouco tempo:
- Oh, sim, está tudo bem, obrigado. Desculpe ter entrado assim sem avisar, mas vi a porta aberta e pensei…
- Não faz mal. Estava à sua espera. Tenho uma coisa para si.
- Para mim?
Sem responder, acabou de verter o chá e saiu. Demorou cerca de dois minutos, durante os quais fiquei nervosamente sentado, com a chávena fumegante ainda cheia sobre a mesa. Quando voltou, trazia na mão um caderno de capa preta e aspecto bastante usado. Tinha posto os óculos de massa escura, que trazia caracteristicamente quase à ponta do nariz. Sentou-se de novo à minha frente e perguntou:
- Então não bebe o chazinho? Está tão bom… Faz muito bem à garganta e ao estômago.
- Bebo sim, obrigado. Estou só à espera que arrefeça mais um pouco.
- Mas olhe que o chazinho quentinho é que faz bem.
Olhei a superfície límpida do líquido e levei-o aos lábios, sentindo uma sensação revigorante de calor a confortar-me por dentro. Dei dois ou três goles, pousando em seguida a chávena sobre o pires morno. Fiquei, então, a fitar os olhos pequenos e luzidios da senhora, azuis como o oceano profundo. Então, estendeu-me o caderno, e fiquei abismado ao reconhecê-lo. Aquele caderno, onde escrevera tantas cartas e poemas de amor, e que ficara perdido na clareira perto da minha casa até àquele momento. Mas como podia ser?
Como que adivinhando a minha incredulidade, a senhora replicou:
- É seu, não é? Devia ter mais cuidado com essas coisas.
Estava demasiado atónito para poder articular qualquer resposta. Desfolhei-o rapidamente, parando numa página que me deixou incalculavelmente mais estupefacto. Estava escrita a tinta azul, numa caligrafia mais ou menos aprumada, e podia ler-se na primeira linha: «Estarei sempre à tua espera». Olhei a senhora com um ar inquiridor, ao que ela prontamente respondeu:
- Esse poema é muito bonito. É para alguém especial, não é?
Aquilo era demais para a minha frágil estrutura, demais para a minha limitada compreensão. Que sentido, por mais remoto que fosse, poderia aquilo fazer? Interrompendo-me os pensamentos, que voavam apressados num remoinho de ideias tolas e inconsistentes, a idosa senhora ergueu-se da cadeira, dirigiu-se até junto de mim e, com as suas mãos nas minhas, fechou o caderno no meu colo e disse, fitando-me com os seus intensos olhos vítreos:
- O meu menino devia mostrar esse poema à menina para quem o escreveu. Tenho a certeza que ela ia gostar muito.
Nesse momento, um ruído estranho àquele cenário soou na minha cabeça. Aí, percebi tudo, ao reconhecer o toque inconveniente do meu despertador. Tudo não passava de um magnífico sonho do qual não tardaria a acordar. “Que pena”, pensei, “estava a ser tão bom…”
Já só tive tempo de ouvir algumas palavras antes de acordar e desligar resignadamente o despertador, e foram elas:- Olhe que eu já vivi muito, e sei o que digo: um amor assim é difícil de encontrar. Vá em frente com coragem, meu menino. Força.
quinta-feira, outubro 04, 2007
Cumplicidade.
Contemplo nesta lonjura
Corrompido de desejo
A tua pele morena
Teu sorriso tem doçura
Que transborda de sobejo
P’la tua boca pequena
Meu olhar impaciente
Vai percorrendo sem medo
O teu corpo em movimento
E o teu olhar não me mente
Quando desvenda em segredo
Rumores do teu sentimento
E preso à minha vontade
De te envolver nos meus braços
Entre uma rumba e um beijo
Sinto um amor sem idade
Que desenho em finos traços
No papel do meu desejo
No meu intento rendido
Ao teu olhar feiticeiro
Desvendo agora a cantar
O meu amor foragido
O meu sentir verdadeiro
E a minha forma de amar
04/10/2007
4:48
(Para cantar com a música do "Fado Três Bairros", de Casimiro Ramos.)
domingo, setembro 30, 2007
Dias e noites (Parte I).
Havia um gato que, assiduamente, deambulava pelo passeio em frente à minha casa. Era de cor escura, mas às horas que costumava vê-lo serpentear por entre os canteiros que pontuavam a rua, na negrura da noite mais cerrada, não podia assegurar se era apenas preto, ou de alguma tonalidade ainda mais sombria. O seu miado era distinto, num timbre pouco natural que parecia simular um chamamento, como que um apelo à própria noite para que o ocultasse sob o seu imperioso manto.
Havia também uns olhos que, apesar de viajarem sempre agarrados à face opaco do gato, pareciam fazê-lo apenas por obrigação de força maior, aparentando ganhar vida própria a cada passo cauteloso que os levava de um lado ao outro da estrada. Eram o perfeito contraste com a negrura da noite e do gato: brilhavam com uma luminosidade que almejava competir com as mais vistosas estrelas, num tom turquesa bem definido e quase sedutor. Sempre bem abertos, iluminavam zelosamente o caminho do felino que, por entre os obstáculos da rua, vagueava de forma híbrida entre o errante e o deliberado.
Para além do gato e dos cintilantes olhos, havia apenas uma fresta na janela do primeiro andar, através da qual contemplava a cena, intrigado com a forma quase humana como aqueles olhos faziam o gato parecer comportar-se. Com as luzes do quarto todas apagas para melhor apreender a escuridão da noite e a luz daqueles olhos, e neles me imiscuir, deixava-me ficar absorto em pensamentos improváveis, em fracamente plausíveis ideias que roçavam mesmo as fronteiras da fantasia. Por vezes, acabava por adormecer à janela e, quando isso acontecia, continuava a observar o mesmo cenário em sucessivos sonhos sempre iguais, para finalmente despertar quando os primeiros raios de sol encontravam caminho por entre a fresta e pousavam a sua morna mão sobre a minha face enregelada, constatando imediatamente que a noite se fora e, com ela, também o gato e os seus olhos. Nessa altura, resignava-me à realidade quotidiana, sempre ansiando pelo ocaso que traria consigo, mais uma vez, o misterioso animal de olhos humanos,
* * * * *
Naquela noite, em que a lua se escondera na sombra projectada pela terra na sua superfície acidentada, e em que as estrelas brilhavam com um fulgor particularmente forte, decidi que seria diferente. Estava sentado na mesma poltrona, com a janela sempre na mesma posição semiaberta, observando fixamente os olhos azuis que, subitamente, para minha surpresa, contrariamente a todas as noites anteriores, cruzaram o seu brilho com o meu olhar extasiado, e senti, ou melhor, confirmei que neles se encerrava um subtil chamamento e que, por alguma razão, parecia desta vez a mim dirigido. A princípio, sem saber bem como reagir àquela mudança inesperada num cenário tantas vezes repetido da mesma forma, quedei-me a apreciar aquele fortuito encontro de olhares, que me preencheu inexplicavelmente com um perturbante burburinho interior, fazendo com que quase sentisse o meu espírito a cambalear dentro de mim. Com esse tumulto a crescer e a ganhar força, foi como se deixasse de ter controlo sobre os meus movimentos, erguendo-me prontamente. Enfiei o blusão ruço que pendia do cabide à entrada do quarto e peguei nas chaves de casa, dirigindo-me firme para a porta. Ainda estaquei por momentos, como se aqueles segundos sem o olhar preso ao refulgir daqueles olhos tivesse sido suficientes para quebrar aquela espécie de encantamento, mas a simples alusão ao azul intenso desse olhar nos meus pensamentos pareceu reacender o feitiço que de mim se apossara, levando-me a sair rapidamente, descendo as escadas do prédio completamente às escuras, numa ânsia desmesurada por me encontrar novamente com a fonte de luz que me encantara.
* * * * *
É preciso, neste ponto, esclarecer que existem momentos na nossa vida em que experimentamos algo inexplicável, algo que desafia toda a nossa compreensão, algo que põe em causa o entendimento normal das coisas. Todos nós passamos por isso e, passados esses momentos, quando em tentativas vãs de os compreender os trazemos à memória uma e outra vez, apercebemo-nos de que todo o misticismo e toda a fantasia não passam de um produto da interface não suposta entre a nossa realidade e o desconhecido, e que surge na defesa das fundações e das leis mais fundamentais que formulamos e que pensamos, de forma arrogante, abarcarem toda a realidade. Há coisas que, pura e simplesmente, nos são naturalmente inacessíveis à compreensão, mas que podemos vivenciar e desfrutar daquilo que elas nos podem proporcionar. Penso que isto é fundamental para que o relato que se segue não vos deixe a pensar que este é apenas mais um conto fantástico para entreter algumas mentes mais cansadas da fastidiosa experiência diária, tão parca de momentos impossíveis.
* * * * *
Ao chegar à porta do prédio, com o coração a ameaçar saltar-me do peito, tal não era a impetuosidade com que bombeava o sangue através de todo o emaranhado de artérias e veias e capilares que percorriam o meu corpo, fiquei mais uma vez parado por alguns momentos, numa tentativa inconsciente de prolongar aquela sensação de excitante expectativa. Após um exasperado suspiro, abri a porta e saí.
De imediato, a luz de um candeeiro de rua que havia anos se apagara aparentemente de forma definitiva, acendeu-se repentinamente, e a violência daquele choque ofuscou-me completamente a vista durante alguns instantes que me pareceram horas. Enquanto piscava desenfreadamente os olhos, de forma a tentar compensar a extrema exposição àquela luz após tanto tempo imerso na mais profunda escuridão, apercebi-me de que algo não estava certo. Ainda cego pela descarga luminosa, avancei lentamente, tentando apalpar com as mãos as impalpáveis ondas sonoras que constituíam os tão característicos miados do felino que ali me atraíra.
De tantas conjunções de pequenas circunstâncias improváveis, aquela era realmente caricata: um gato que lançava feitiços, um candeeiro que despertava de uma letargia que aparentara ser derradeira, e uns olhos cegos precisamente no momento em que mais precisavam de ver. Para além disso, tudo acontecia na noite em que ela partira.
* * * * *
Impressionantemente longe daquele ambiente nocturno, durante o dia-a-dia insosso e repetitivo, havia uma mulher. Pouco mais era do que uma garota, dezassete anos feitos nesse Verão que ameaçava terminar com o reinício iminente das aulas, mas aos meus olhos era o mais impressionante exemplar do género feminino: olhos amendoados de um castanho inebriante, uma cabeleira de caracóis suaves e tonalidade escura cujos reflexos à luz intensa do meio-dia condiziam perfeitamente com a sua tez morena. O porte simultaneamente esguio e desembaraçado conferia-lhe uma sensualidade irrepetível, e que reverberava com os meus sentidos numa portentosa sinfonia de sensações miscelâneas, envolvendo-me num espectro que abrangia desde as mais puras e serenas emoções às mais carnais intenções que podem brotar da frágil estrutura emocional de um jovem como eu. O nome, que prefiro não mencionar por razões que também não enunciarei, acompanhava-me para toda a parte, surgindo amiúde ao longo as minhas noites contemplativas, como se de uma melodia se tratasse, uma daquelas que fica no ouvido ao primeiro contacto e que, incansavelmente, repetimos quase até à exaustão. E os lábios… Já mencionei que a sua constituição carnuda e irresistível me atormentava de cada vez que tinha o ambíguo prazer de observá-los? O seu sabor, ainda desconhecido para mim, era o ponto de partida para inúmeras conjecturas e especulações que floresciam quase automaticamente sempre que a sua presença assaltava o meu espírito.
Havia ela a colorir os meus dias, havia o gato e o seu olhar a acinzentar as minhas noites, e havia eu, no meio daquela bizarra dicotomia, sem saber como agir perante ambas as realidades.
* * * * *
Naquele dia, que precedeu aquela auspiciosa noite, soube que ela partira. Não sei ao certo qual o seu destino, nem encontrei ninguém que soubesse esclarecer-me. Simplesmente, a quatro dias da reabertura do ano lectivo, ela partira para parte incerta, deixando-me, como sempre, mas de forma completamente nova, no centro de um turbilhão de sentimentos que eclodiam em pequenas erupções de desconsolo e desânimo, culminando certeiramente numa tempestade de saudosismo doloroso e cinzento. Como enfrentar a monótona sucessão de frames que era o meu dia-a-dia sem a sua cálida presença a despertar-me para um mundo de infinitas possibilidades em que podia, afinal, perder-me num rumo indefinido? Sem essa rosa-dos-ventos em que costumava esconder-me voluntariamente, sem esse ciclone de sensações juvenis e adultas ao mesmo tempo, sentia-me assustadoramente vazio, largado mais uma vez na repetição aborrecida e monocórdica que fora a minha vida antes de a conhecer.
* * * * *
Os meus olhos começavam a habituar-se mais uma vez à escuridão, embora não conseguisse ainda distinguir mais do que algumas sombras desfocadas. No entanto, pude enxergar um vulto baixo e esquivo, que associei de imediato ao negro gato. Este afastava-se visivelmente apressado, dirigindo-se para o que me pareceu um caminho de terra batida que ligava o outro lado da estrada a uma discreta clareira no meio do arvoredo selvagem que havia perto da minha casa. Esforçando-me por acompanhar o seu estugado passo, com a luz do candeeiro ainda a comprometer a minha acuidade visual, segui-o pela vereda que se adensava de mato à medida que prosseguia. Ainda me cortei num ramo que não consegui evitar e, com a rua já escondida pela vegetação alta que filtrava finalmente a luz do candeeiro, tive apenas tempo para vislumbrar o vulto felino a enfiar-se pelo matagal adentro, estacando perante a impossibilidade de continuar a perseguição.
Alumiado agora apenas pela ténue luz das estrelas que pontuavam a bruma, com o sangue quente a escorrer pela minha cara rubra, senti-me ultrajado pela atitude incompreensível do gato, que se esgueirara para fora de alcance depois de me atrair para o meio do bosque às duas e meia da madrugada. Ouvi o solene repicar do sino da igreja a indicar a meia hora, sentando-me numa raiz saliente para retomar o fôlego e pensar no que faria a partir dali, mas um rumor de presença mais à frente no caminho pôs-me os sentidos em alerta e encheu-me de curiosidade. Sem me deter mais, ergui-me de novo e dirigi-me ao local de onde parecia ouvir agora um ligeiro caminhar, como se alguém deambulasse por entre a folhagem tombada.
* * * * *
Devo dizer-vos que aquela clareira encerra, no baú de todos os segredos que desde tempos remotos colecciona, um que me envolveu directamente, a mim e a ela. Isto passou-se pouco depois da sua entrada repentina na minha vida tranquila, embora a data exacta me escape já da memória. Fico até admirado por tal ter acontecido, já que é a recordação mais vívida e lúcida e todas as que possuo, sendo até capaz de fechar os olhos e revivê-la ao pormenor vezes sem conta. Era, aliás, esse um dos meus passatempos preferidos, especialmente nas alturas mais aborrecidas da minha vida banal. De qualquer modo, sinto-me na obrigação de vos elucidar.
Era uma tarde amena de Primavera, e a clareira estava ricamente enfeitada por diversas árvores e plantas floridas, compondo um colorido quadro de incomparável beleza e frescura. Acrescentando todos os trinados e assobios que um número incomensurável de aves libertava das suas irrepreensíveis gargantas, e o resfolgar de uma suave brisa vespertina por entre as copas engalanadas do arvoredo, ficava-se na presença de um edílico santuário natural, imperturbável e fabuloso. Apenas alguns raios de sol mais teimosos espreitavam ainda pelo topo dos verdejantes pináculos, mas transportavam claridade mais do que suficiente para a minha lírica tarefa.
Com um caderno aberto no colo e uma esferográfica azul entre os dedos, escrevinhava concentrado um poema que, ironicamente, se destinava, pelo menos em intenção, àquela que surgiria, sem aviso, de uma vereda escondida por uma cerrada teia de ramos e folhas, e da qual nunca tivera conhecimento antes. Com a inesperada aparição, levantei-me sobressaltado, deixando o caderno tombar no solo humoso e fértil, apercebendo-me imediatamente da identidade da pessoa que interrompera o meu momento de inspiração. Era ela, mais bela e radiosa do que nunca, com o cabelo caindo livremente sobre os ombros descobertos, vestida toda de claro, criando um agradável contraste com a sua pele bronzeada. A blusa curta era branca, matizada de vários tons de azul, permitindo que se visse o baixo abdómen deliciosamente delineado por imperceptíveis curvas impecáveis, e a saia de ganga, igualmente curta, tinha uma flor de tecido embutida de um dos lados, deixando a descoberto as suas elegantes pernas morenas que incitavam os meus imaginativos olhos a percorrê-las de ponta a ponta.
Embasbacado com a situação, nem me apercebi de que ela não reparara na minha presença e se dirigia ao tronco de uma das maiores e mais antigas árvores da clareira, parando mesmo de frente para este. De seguida, virou-lhe as costas e encostou-se, deixando escapar um disfarçado suspiro, resvalando depois até acabar por se sentar, ficando a fitar o horizonte com um olhar vago e triste.
Tentado a indagá-la sobre o que se passava, encaminhei-me lentamente na sua direcção, e quando estava a uns meros dois metros de distância, denunciei inadvertidamente a minha presença ao estalar um graveto seco sob um passo mais descuidado. Nesse momento, ela virou os olhos, que se cruzaram com os meus durante alguns instantes que pareceu durar a vida inteira. Era um olhar definitivamente meigo, mas condimentado com um quê de tristeza e angústia, algo que não compreendi naquela altura.
Após alguma hesitação, decidi-me a falar, e perguntei-lhe:
- Está tudo bem contigo?
A resposta que obtive foi um indefinido encolher de ombros, seguido de um desvio do olhar de novo para o horizonte. Experimentei aproximar-me, até que acabei por me sentar junto dela, e qual não foi o meu espanto quando senti a sua cabeça apoiada no meu ombro. Surpreso pela sua atitude, deixei-me ficar, envolvendo-a num abraço firme e carinhoso, e dessa forma ficámos até o sol atingir o extremo do firmamento, começando a despedir-se do dia que chegava ao fim e dando as boas-vindas à noite que se anunciava.
Então, como se o lusco-fusco a tivesse acordado de um sono tranquilo, espreguiçou-se no meu colo e ergueu-se, estendendo-me a delicada mão para me ajudar a levantar. Acedi à sua oferta e segurei a sua mão com delicadeza, parando mesmo à sua frente à distância de um passo. A troca de olhares que se seguiu fica para lá de qualquer tentativa de descrição, já que não há linguagem escrita ou falada que possa exprimir na plenitude a essência daquele intenso momento. Os seus olhos brilhavam mesmo na ausência de luz que neles se reflectisse, e pude neles distinguir o esboço de uma lágrima que se formava às escondidas no seu humor cristalino. Estávamos, naquele momento, à distância de um beijo…
Mas nunca chegou a culminar nessa tão desejada manifestação de amor e de afecto, já que ela recuou ao primeiro indício de avanço da minha parte. Depois, olhou para baixo e, numa voz mais encantadora que os trinados agora adormecidos dos pássaros, disse:
- Obrigado. Agora gostava de ficar sozinha.
Não tive outra opção senão aceder ao seu pedido, largando a sua mão com relutância e dirigindo-me, pela vereda, até casa. O meu coração palpitava ainda de amor e desapontamento, num misto descontrolado de emoções que me manteve acordado toda a noite.
* * * * *
Ao ver-me naquele lugar outra vez, não pude deixar de recordar tudo o que acabo de relatar, como um filme projectado num ecrã alojado algures na minha mais secreta e profunda lembrança, sob a forma da mais límpida película. Agora, de volta à escuridão impenetrável da noite, algo me dizia que aquela tarde tinha algo a ver com a minha presença ali, e com o misterioso gato que ali me conduzira. Restava apenas desvendar a proveniência dos passos que me chamavam irresistivelmente à clareira. Com esse intento, avancei na sua direcção, e o que ali encontrei deixou-me boquiaberto.
Num dos troncos mais grossos de todos os que se avistavam, que por sinal pertencia talvez à maior e mais antiga árvore que ali se enraizara, pregada encontrava-se uma folha cuja brancura, ainda que ponteada por rabiscos azuis àquela distância indecifráveis, reflectia intensamente a moderada luz irradiada por um céu cada vez mais estrelado. De resto, num rápido relance a toda a largura da clareira, nada mais fui capaz de distinguir, muito menos algum sinal de gente. Estranhamente, até o rumor de passos que escutara escassos momentos atrás cessara por completo, sendo que agora se ouvia apenas uma incansável rapsódia de grilos.
Sem mais por onde pegar, segui para junto do tronco de onde pendia a folha, que identifiquei como parte do caderno em tempos ali esquecido assim que li a primeira linha. Tudo o resto estava rasurado, ou borrado, ou até mesmo sobreposto de tinta correctora, sendo aquela a única frase legível em toda a página. E dizia tão-somente isto: «Estarei sempre à tua espera»…
Havia também uns olhos que, apesar de viajarem sempre agarrados à face opaco do gato, pareciam fazê-lo apenas por obrigação de força maior, aparentando ganhar vida própria a cada passo cauteloso que os levava de um lado ao outro da estrada. Eram o perfeito contraste com a negrura da noite e do gato: brilhavam com uma luminosidade que almejava competir com as mais vistosas estrelas, num tom turquesa bem definido e quase sedutor. Sempre bem abertos, iluminavam zelosamente o caminho do felino que, por entre os obstáculos da rua, vagueava de forma híbrida entre o errante e o deliberado.
Para além do gato e dos cintilantes olhos, havia apenas uma fresta na janela do primeiro andar, através da qual contemplava a cena, intrigado com a forma quase humana como aqueles olhos faziam o gato parecer comportar-se. Com as luzes do quarto todas apagas para melhor apreender a escuridão da noite e a luz daqueles olhos, e neles me imiscuir, deixava-me ficar absorto em pensamentos improváveis, em fracamente plausíveis ideias que roçavam mesmo as fronteiras da fantasia. Por vezes, acabava por adormecer à janela e, quando isso acontecia, continuava a observar o mesmo cenário em sucessivos sonhos sempre iguais, para finalmente despertar quando os primeiros raios de sol encontravam caminho por entre a fresta e pousavam a sua morna mão sobre a minha face enregelada, constatando imediatamente que a noite se fora e, com ela, também o gato e os seus olhos. Nessa altura, resignava-me à realidade quotidiana, sempre ansiando pelo ocaso que traria consigo, mais uma vez, o misterioso animal de olhos humanos,
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Naquela noite, em que a lua se escondera na sombra projectada pela terra na sua superfície acidentada, e em que as estrelas brilhavam com um fulgor particularmente forte, decidi que seria diferente. Estava sentado na mesma poltrona, com a janela sempre na mesma posição semiaberta, observando fixamente os olhos azuis que, subitamente, para minha surpresa, contrariamente a todas as noites anteriores, cruzaram o seu brilho com o meu olhar extasiado, e senti, ou melhor, confirmei que neles se encerrava um subtil chamamento e que, por alguma razão, parecia desta vez a mim dirigido. A princípio, sem saber bem como reagir àquela mudança inesperada num cenário tantas vezes repetido da mesma forma, quedei-me a apreciar aquele fortuito encontro de olhares, que me preencheu inexplicavelmente com um perturbante burburinho interior, fazendo com que quase sentisse o meu espírito a cambalear dentro de mim. Com esse tumulto a crescer e a ganhar força, foi como se deixasse de ter controlo sobre os meus movimentos, erguendo-me prontamente. Enfiei o blusão ruço que pendia do cabide à entrada do quarto e peguei nas chaves de casa, dirigindo-me firme para a porta. Ainda estaquei por momentos, como se aqueles segundos sem o olhar preso ao refulgir daqueles olhos tivesse sido suficientes para quebrar aquela espécie de encantamento, mas a simples alusão ao azul intenso desse olhar nos meus pensamentos pareceu reacender o feitiço que de mim se apossara, levando-me a sair rapidamente, descendo as escadas do prédio completamente às escuras, numa ânsia desmesurada por me encontrar novamente com a fonte de luz que me encantara.
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É preciso, neste ponto, esclarecer que existem momentos na nossa vida em que experimentamos algo inexplicável, algo que desafia toda a nossa compreensão, algo que põe em causa o entendimento normal das coisas. Todos nós passamos por isso e, passados esses momentos, quando em tentativas vãs de os compreender os trazemos à memória uma e outra vez, apercebemo-nos de que todo o misticismo e toda a fantasia não passam de um produto da interface não suposta entre a nossa realidade e o desconhecido, e que surge na defesa das fundações e das leis mais fundamentais que formulamos e que pensamos, de forma arrogante, abarcarem toda a realidade. Há coisas que, pura e simplesmente, nos são naturalmente inacessíveis à compreensão, mas que podemos vivenciar e desfrutar daquilo que elas nos podem proporcionar. Penso que isto é fundamental para que o relato que se segue não vos deixe a pensar que este é apenas mais um conto fantástico para entreter algumas mentes mais cansadas da fastidiosa experiência diária, tão parca de momentos impossíveis.
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Ao chegar à porta do prédio, com o coração a ameaçar saltar-me do peito, tal não era a impetuosidade com que bombeava o sangue através de todo o emaranhado de artérias e veias e capilares que percorriam o meu corpo, fiquei mais uma vez parado por alguns momentos, numa tentativa inconsciente de prolongar aquela sensação de excitante expectativa. Após um exasperado suspiro, abri a porta e saí.
De imediato, a luz de um candeeiro de rua que havia anos se apagara aparentemente de forma definitiva, acendeu-se repentinamente, e a violência daquele choque ofuscou-me completamente a vista durante alguns instantes que me pareceram horas. Enquanto piscava desenfreadamente os olhos, de forma a tentar compensar a extrema exposição àquela luz após tanto tempo imerso na mais profunda escuridão, apercebi-me de que algo não estava certo. Ainda cego pela descarga luminosa, avancei lentamente, tentando apalpar com as mãos as impalpáveis ondas sonoras que constituíam os tão característicos miados do felino que ali me atraíra.
De tantas conjunções de pequenas circunstâncias improváveis, aquela era realmente caricata: um gato que lançava feitiços, um candeeiro que despertava de uma letargia que aparentara ser derradeira, e uns olhos cegos precisamente no momento em que mais precisavam de ver. Para além disso, tudo acontecia na noite em que ela partira.
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Impressionantemente longe daquele ambiente nocturno, durante o dia-a-dia insosso e repetitivo, havia uma mulher. Pouco mais era do que uma garota, dezassete anos feitos nesse Verão que ameaçava terminar com o reinício iminente das aulas, mas aos meus olhos era o mais impressionante exemplar do género feminino: olhos amendoados de um castanho inebriante, uma cabeleira de caracóis suaves e tonalidade escura cujos reflexos à luz intensa do meio-dia condiziam perfeitamente com a sua tez morena. O porte simultaneamente esguio e desembaraçado conferia-lhe uma sensualidade irrepetível, e que reverberava com os meus sentidos numa portentosa sinfonia de sensações miscelâneas, envolvendo-me num espectro que abrangia desde as mais puras e serenas emoções às mais carnais intenções que podem brotar da frágil estrutura emocional de um jovem como eu. O nome, que prefiro não mencionar por razões que também não enunciarei, acompanhava-me para toda a parte, surgindo amiúde ao longo as minhas noites contemplativas, como se de uma melodia se tratasse, uma daquelas que fica no ouvido ao primeiro contacto e que, incansavelmente, repetimos quase até à exaustão. E os lábios… Já mencionei que a sua constituição carnuda e irresistível me atormentava de cada vez que tinha o ambíguo prazer de observá-los? O seu sabor, ainda desconhecido para mim, era o ponto de partida para inúmeras conjecturas e especulações que floresciam quase automaticamente sempre que a sua presença assaltava o meu espírito.
Havia ela a colorir os meus dias, havia o gato e o seu olhar a acinzentar as minhas noites, e havia eu, no meio daquela bizarra dicotomia, sem saber como agir perante ambas as realidades.
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Naquele dia, que precedeu aquela auspiciosa noite, soube que ela partira. Não sei ao certo qual o seu destino, nem encontrei ninguém que soubesse esclarecer-me. Simplesmente, a quatro dias da reabertura do ano lectivo, ela partira para parte incerta, deixando-me, como sempre, mas de forma completamente nova, no centro de um turbilhão de sentimentos que eclodiam em pequenas erupções de desconsolo e desânimo, culminando certeiramente numa tempestade de saudosismo doloroso e cinzento. Como enfrentar a monótona sucessão de frames que era o meu dia-a-dia sem a sua cálida presença a despertar-me para um mundo de infinitas possibilidades em que podia, afinal, perder-me num rumo indefinido? Sem essa rosa-dos-ventos em que costumava esconder-me voluntariamente, sem esse ciclone de sensações juvenis e adultas ao mesmo tempo, sentia-me assustadoramente vazio, largado mais uma vez na repetição aborrecida e monocórdica que fora a minha vida antes de a conhecer.
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Os meus olhos começavam a habituar-se mais uma vez à escuridão, embora não conseguisse ainda distinguir mais do que algumas sombras desfocadas. No entanto, pude enxergar um vulto baixo e esquivo, que associei de imediato ao negro gato. Este afastava-se visivelmente apressado, dirigindo-se para o que me pareceu um caminho de terra batida que ligava o outro lado da estrada a uma discreta clareira no meio do arvoredo selvagem que havia perto da minha casa. Esforçando-me por acompanhar o seu estugado passo, com a luz do candeeiro ainda a comprometer a minha acuidade visual, segui-o pela vereda que se adensava de mato à medida que prosseguia. Ainda me cortei num ramo que não consegui evitar e, com a rua já escondida pela vegetação alta que filtrava finalmente a luz do candeeiro, tive apenas tempo para vislumbrar o vulto felino a enfiar-se pelo matagal adentro, estacando perante a impossibilidade de continuar a perseguição.
Alumiado agora apenas pela ténue luz das estrelas que pontuavam a bruma, com o sangue quente a escorrer pela minha cara rubra, senti-me ultrajado pela atitude incompreensível do gato, que se esgueirara para fora de alcance depois de me atrair para o meio do bosque às duas e meia da madrugada. Ouvi o solene repicar do sino da igreja a indicar a meia hora, sentando-me numa raiz saliente para retomar o fôlego e pensar no que faria a partir dali, mas um rumor de presença mais à frente no caminho pôs-me os sentidos em alerta e encheu-me de curiosidade. Sem me deter mais, ergui-me de novo e dirigi-me ao local de onde parecia ouvir agora um ligeiro caminhar, como se alguém deambulasse por entre a folhagem tombada.
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Devo dizer-vos que aquela clareira encerra, no baú de todos os segredos que desde tempos remotos colecciona, um que me envolveu directamente, a mim e a ela. Isto passou-se pouco depois da sua entrada repentina na minha vida tranquila, embora a data exacta me escape já da memória. Fico até admirado por tal ter acontecido, já que é a recordação mais vívida e lúcida e todas as que possuo, sendo até capaz de fechar os olhos e revivê-la ao pormenor vezes sem conta. Era, aliás, esse um dos meus passatempos preferidos, especialmente nas alturas mais aborrecidas da minha vida banal. De qualquer modo, sinto-me na obrigação de vos elucidar.
Era uma tarde amena de Primavera, e a clareira estava ricamente enfeitada por diversas árvores e plantas floridas, compondo um colorido quadro de incomparável beleza e frescura. Acrescentando todos os trinados e assobios que um número incomensurável de aves libertava das suas irrepreensíveis gargantas, e o resfolgar de uma suave brisa vespertina por entre as copas engalanadas do arvoredo, ficava-se na presença de um edílico santuário natural, imperturbável e fabuloso. Apenas alguns raios de sol mais teimosos espreitavam ainda pelo topo dos verdejantes pináculos, mas transportavam claridade mais do que suficiente para a minha lírica tarefa.
Com um caderno aberto no colo e uma esferográfica azul entre os dedos, escrevinhava concentrado um poema que, ironicamente, se destinava, pelo menos em intenção, àquela que surgiria, sem aviso, de uma vereda escondida por uma cerrada teia de ramos e folhas, e da qual nunca tivera conhecimento antes. Com a inesperada aparição, levantei-me sobressaltado, deixando o caderno tombar no solo humoso e fértil, apercebendo-me imediatamente da identidade da pessoa que interrompera o meu momento de inspiração. Era ela, mais bela e radiosa do que nunca, com o cabelo caindo livremente sobre os ombros descobertos, vestida toda de claro, criando um agradável contraste com a sua pele bronzeada. A blusa curta era branca, matizada de vários tons de azul, permitindo que se visse o baixo abdómen deliciosamente delineado por imperceptíveis curvas impecáveis, e a saia de ganga, igualmente curta, tinha uma flor de tecido embutida de um dos lados, deixando a descoberto as suas elegantes pernas morenas que incitavam os meus imaginativos olhos a percorrê-las de ponta a ponta.
Embasbacado com a situação, nem me apercebi de que ela não reparara na minha presença e se dirigia ao tronco de uma das maiores e mais antigas árvores da clareira, parando mesmo de frente para este. De seguida, virou-lhe as costas e encostou-se, deixando escapar um disfarçado suspiro, resvalando depois até acabar por se sentar, ficando a fitar o horizonte com um olhar vago e triste.
Tentado a indagá-la sobre o que se passava, encaminhei-me lentamente na sua direcção, e quando estava a uns meros dois metros de distância, denunciei inadvertidamente a minha presença ao estalar um graveto seco sob um passo mais descuidado. Nesse momento, ela virou os olhos, que se cruzaram com os meus durante alguns instantes que pareceu durar a vida inteira. Era um olhar definitivamente meigo, mas condimentado com um quê de tristeza e angústia, algo que não compreendi naquela altura.
Após alguma hesitação, decidi-me a falar, e perguntei-lhe:
- Está tudo bem contigo?
A resposta que obtive foi um indefinido encolher de ombros, seguido de um desvio do olhar de novo para o horizonte. Experimentei aproximar-me, até que acabei por me sentar junto dela, e qual não foi o meu espanto quando senti a sua cabeça apoiada no meu ombro. Surpreso pela sua atitude, deixei-me ficar, envolvendo-a num abraço firme e carinhoso, e dessa forma ficámos até o sol atingir o extremo do firmamento, começando a despedir-se do dia que chegava ao fim e dando as boas-vindas à noite que se anunciava.
Então, como se o lusco-fusco a tivesse acordado de um sono tranquilo, espreguiçou-se no meu colo e ergueu-se, estendendo-me a delicada mão para me ajudar a levantar. Acedi à sua oferta e segurei a sua mão com delicadeza, parando mesmo à sua frente à distância de um passo. A troca de olhares que se seguiu fica para lá de qualquer tentativa de descrição, já que não há linguagem escrita ou falada que possa exprimir na plenitude a essência daquele intenso momento. Os seus olhos brilhavam mesmo na ausência de luz que neles se reflectisse, e pude neles distinguir o esboço de uma lágrima que se formava às escondidas no seu humor cristalino. Estávamos, naquele momento, à distância de um beijo…
Mas nunca chegou a culminar nessa tão desejada manifestação de amor e de afecto, já que ela recuou ao primeiro indício de avanço da minha parte. Depois, olhou para baixo e, numa voz mais encantadora que os trinados agora adormecidos dos pássaros, disse:
- Obrigado. Agora gostava de ficar sozinha.
Não tive outra opção senão aceder ao seu pedido, largando a sua mão com relutância e dirigindo-me, pela vereda, até casa. O meu coração palpitava ainda de amor e desapontamento, num misto descontrolado de emoções que me manteve acordado toda a noite.
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Ao ver-me naquele lugar outra vez, não pude deixar de recordar tudo o que acabo de relatar, como um filme projectado num ecrã alojado algures na minha mais secreta e profunda lembrança, sob a forma da mais límpida película. Agora, de volta à escuridão impenetrável da noite, algo me dizia que aquela tarde tinha algo a ver com a minha presença ali, e com o misterioso gato que ali me conduzira. Restava apenas desvendar a proveniência dos passos que me chamavam irresistivelmente à clareira. Com esse intento, avancei na sua direcção, e o que ali encontrei deixou-me boquiaberto.
Num dos troncos mais grossos de todos os que se avistavam, que por sinal pertencia talvez à maior e mais antiga árvore que ali se enraizara, pregada encontrava-se uma folha cuja brancura, ainda que ponteada por rabiscos azuis àquela distância indecifráveis, reflectia intensamente a moderada luz irradiada por um céu cada vez mais estrelado. De resto, num rápido relance a toda a largura da clareira, nada mais fui capaz de distinguir, muito menos algum sinal de gente. Estranhamente, até o rumor de passos que escutara escassos momentos atrás cessara por completo, sendo que agora se ouvia apenas uma incansável rapsódia de grilos.
Sem mais por onde pegar, segui para junto do tronco de onde pendia a folha, que identifiquei como parte do caderno em tempos ali esquecido assim que li a primeira linha. Tudo o resto estava rasurado, ou borrado, ou até mesmo sobreposto de tinta correctora, sendo aquela a única frase legível em toda a página. E dizia tão-somente isto: «Estarei sempre à tua espera»…
sábado, setembro 29, 2007
Deuses.
Deuses curvos, deuses turvos,
Deuses sem braços, deuses crassos,
Deuses livres de embaraços,
Deuses meigos, deuses vagos,
Deuses que bebo em dois tragos,
Deuses francos, deuses mágicos,
Deuses falsos, deuses trágicos,
Deuses que a vida escondeu,
Deuses de quem é ateu,
Deuses mortais, infernais,
Deuses fracos, deuses parcos,
Deuses em terra e em barcos,
Deuses leves, deuses magros,
Deuses vãos e esquecidos,
Deuses perdidos nas mãos,
Deuses de ontem, deuses fixos,
Deuses feitos de prefixos
E sufixos...
Deuses omnipotentes,
Deuses que são inconscientes,
Deuses faustos, deuses santos,
Deuses pelos quatro cantos,
Deuses que matam e morrem,
Deuses deuses, deuses homens,
Deuses triplos, deuses múltiplos,
Deuses pré-programados,
Deuses simples, deuses pintados,
Deuses moldados em barro,
Deuses belos, deuses frios,
Deuses de carro ou navio,
Deuses na cruz, deuses da luz,
Deuses convexos, selectos,
Deuses espertos, deuses abertos,
Deuses de mim, deuses de ti,
Deuses daqui e dali,
Deuses mortos, deuses vivos,
Deuses coados em crivos,
Deuses pretos, deuses brancos,
Deuses de frente e p'los flancos,
Deuses sim, deuses não,
Deuses que nem deuses são.
28/09/2007
21:10
Deuses sem braços, deuses crassos,
Deuses livres de embaraços,
Deuses meigos, deuses vagos,
Deuses que bebo em dois tragos,
Deuses francos, deuses mágicos,
Deuses falsos, deuses trágicos,
Deuses que a vida escondeu,
Deuses de quem é ateu,
Deuses mortais, infernais,
Deuses fracos, deuses parcos,
Deuses em terra e em barcos,
Deuses leves, deuses magros,
Deuses vãos e esquecidos,
Deuses perdidos nas mãos,
Deuses de ontem, deuses fixos,
Deuses feitos de prefixos
E sufixos...
Deuses omnipotentes,
Deuses que são inconscientes,
Deuses faustos, deuses santos,
Deuses pelos quatro cantos,
Deuses que matam e morrem,
Deuses deuses, deuses homens,
Deuses triplos, deuses múltiplos,
Deuses pré-programados,
Deuses simples, deuses pintados,
Deuses moldados em barro,
Deuses belos, deuses frios,
Deuses de carro ou navio,
Deuses na cruz, deuses da luz,
Deuses convexos, selectos,
Deuses espertos, deuses abertos,
Deuses de mim, deuses de ti,
Deuses daqui e dali,
Deuses mortos, deuses vivos,
Deuses coados em crivos,
Deuses pretos, deuses brancos,
Deuses de frente e p'los flancos,
Deuses sim, deuses não,
Deuses que nem deuses são.
28/09/2007
21:10
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