quarta-feira, janeiro 20, 2016

Bússola.

Abraça-me esta noite de cansaço,
De frio que me não deixa sossegar;
Um gesto é só que basta p'ra sonhar
Que vida não é mais do que esse abraço.

Ampara-me em teu colo generoso
Nesta amizade pura que nos une,
Não deixes que esta mágoa seja impune
No rosto que contorço lacrimoso.

Agarra-me estas mãos desfalecidas
E diz-me que o caminho é muito mais,
Que além dos tropeções e vendavais
Assomam-se já graças prometidas.

Afaga-me o cabelo e, por favor,
Sorri como só tu sabes sorrir;
Ensina-me a chegar após partir:
És hoje a minha bússola de amor.

20/01/2016
18:16

domingo, outubro 18, 2015

De olhos fechados

Olhos abertos, sou trégua;
Olhos fechados, clamor;
Os meus olhos são a régua
Com que meço a minha dor.

De olhos abertos eu vejo
Que há dores em toda a gente;
Fechados são de sobejo
As que o meu coração sente.

Mas não vou de olhos desertos
Consumido em amarguras;
Trago os olhos bem abertos,
Evito andar às escuras.

Só quando à noite, fechados
No silêncio que reclamam
É que os meus olhos cansados
Suas lágrimas derramam.

18/10/2015
20:01

sexta-feira, outubro 16, 2015

A Memória de Outros Dias

A memória de outros dias
Não me deixa sossegar
Em porquês e todavias
Já me cansa o recordar

Porquê, palavra, punhal
Se no seu eco se esconde
Entre soluços e sal
O todavia responde

Responde-me, e todavia
É com mais porquês que fala
Nem o porquê me sacia
Nem todavia me embala

A vida é paz provisória
E o presente uma miragem
Outro dia, outra memória
Nesta agridoce viagem

16/10/2015
12:18

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Camuflagem

Não são sábias as palavras que digo
Nem se afiguram de rara beleza;
Palavras sem sabor e sem certeza
Nascidas dos vãos dias que mastigo;

Palavras com que o silêncio castigo
Em sílabas que entoo com rudeza;
Não são senão de mim mesmo a fraqueza
Sem nada além de mim trazer consigo.

É própria das palavras esta essência
De usar cada qual a sua linguagem
Ainda que aparentem coerência...

Uma sofisticada camuflagem
Perante a solidão da existência
Que dela nos esconde entre a folhagem.

30/01/2015
11:03

sexta-feira, novembro 07, 2014

Caixa de fósforos.

Não consigo odiar ninguém. Mesmo que por vezes, por convenção ou circunstância, tente fazê-lo, o ódio que em mim se acende é como um fósforo, efémero, uma ténue chama que se extingue ao mais leve sopro ou abanão. Mais duradouras são as cinzas que ficam, frias, gélidas, prova material da fugaz presença de uma chama que se consumiu um vão. Permanecem algum tempo no meu chão, lembrando-me o instante em que sucumbi a sentimentos aversos, mas nunca chegam a amontoar-se, pois que se a chama perece na brisa suave, também as cinzas se dispersam no vento dos dias. Vencidas assim chamas e cinzas, resta apenas frio, ou melhor, um vazio de calor, uma flutuação local, um tremor quase imperceptível mas que em certas ocasiões ressoa na minha cabeça: "Odiaste!". É esta a marca que se agarra ao próprio corpo, o sinal indelével de um acto pecaminoso, odiar, que coisa feia, sem jeito, própria de homens maus.

E, contudo, falei de convenção e de circunstância, que é o mesmo que dizer o que é suposto e o que é instintivo, que é o mesmo que dizer o ódio que os outros esperam que eu sinta e o ódio que sinto quando os outros não sentem o que eu espero. Já experimentei ambos e são ambos inúteis, absurdos, chamas vãs e cinzas frias, nada acrescentam, nada ensinam, meros espasmos de alma.

Recordo-me, e por vezes ainda me deixo apanhar nessa armadilha, de sentir ódio por todos os políticos, entretidos nas suas perfídias, nos seus golpes, no seu desdém, nessa altivez rocambolesca que ostentam na falsidade dos fatos engomados e da presença constante em horário nobre, fabulistas perversos, sofistas, sacerdotes de um templo que mostra sinais de ruína, que ameaça abater-se sob o seu próprio peso, vil, pestilento, um dos maiores cancros da humanidade. Não que os odiasse deveras, numa animosidade convicta, mas evidentemente por convenção. Fossem outros os tempos, ou fosse outra a face da moeda em que me encontro, fosse a história uma outra história, enfim, fossem os homens homens melhores e melhores seriam também os políticos, os juízes, os banqueiros, os padres, os mecânicos de automóveis, as donas de casa e os traficantes de droga. Como todas as convenções, o ódio aos políticos é uma moda dos que não o são, dos que desejam sê-lo e não são capazes, dos que não abarcam a unidade complexa da nossa existência social, dos que se sentem injustiçados, e ainda dos que simplesmente não conseguem tomar para si qualquer responsabilidade sobre o mundo em que habitam.

Lembro-me também de, quando era criança, odiar alguns rapazes mais velhos que me atormentavam esporadicamente, mas neste momento em que recordo esses mesmos episódios, não encontro dentro de mim réstia sequer de rancor, nada, mera circunstância. Sempre, que odiei, fi-lo numa de duas modalidades, nenhuma das quais me sugere que tenha odiado verdadeiramente alguém, na sua plena acepção, apenas segui convenções e impulsos. Com o passar do tempo, as convenções foram-se revelando desinteressantes e as circuntâncias irrelevantes; os fósforos que agora acendo têm a madeira encharcada, ardem mal, são abortados à nascença. Não que o escolha conscientemente, é simplesmente assim: não sei odiar, não quero odiar, não encontro sentido nem proveito no ódio. E sinto-me bem com isso.

Gostava tanto de ser capaz de escrever numa expressão matemática ou numa receita como desconstruir o instinto de odiar, para que outros encharcassem os seus fósforos e as suas chamas logo se extinguissem e as suas cinzas depressam esvoaçassem no vento dos dias e o frio que ficasse se amenizasse no contacto mornos com os demais. Não sei explicar em teoremas nem revelações proféticas, não tenho métodos certificados nem remédios milagrosos, mas tenho a experiência de que é real, de que é possível, de que é bom. Se não de explicar, que seja ao menos capaz de inspirar, de despertar outros seres para o ridículo que é odiar por convenção, para a barbaridade de odiar por circunstância, e para a desolação que imagino serem os ódios mais profundos e severos, aqueles cuja chama não será mais um fósforo mas uma tocha, uma fogueira, um incêndio que se apossa da alma inteira, e já não são umas poucas cinzas frias levadas no vento dos dias, mas um mundo demolido, carbonizado, com a vida por um fio entre escombros estéreis e inóspitos. Esse é o maior perigo dos ódios-fósforo: um dia, há um que cai ainda aceso, quente, no bosque virgem da alma, e logo o incendeia implacável.

30/10/2014
11:55


terça-feira, outubro 14, 2014

Quadras de Cordel.

Estas quadras de cordel
Tão singelas que escrevi,
P'ra que saltem do papel
Vou recitá-las aqui.

Mas não julguem imodéstia
Nem pretensão de louvoures;
Não sofro dessa moléstia
Que assola tantos doutores.

Não busco glórias nem fama
Ao escrevinhar tais quimeras,
Nem quando a boca declama
As minhas quadras sinceras.

Junto palavras vulgares
Mais dois ou três pormenores;
Nascem quadras populares
Em redondilhas maiores.

Cruzada componho a rima,
O poema assim norteio:
Rima abaixo, rima acima,
Chega até rimar no meio.

Pois senão veja esta estrofe,
Atenção a cada linha;
Pense agora, filosofe,
Está na hora d'adivinha.

Qual é coisa, qual é ela,
Redonda como um tostão?
Pense bem, tome cautela,
Abre e fecha sem cordão.

E assim com este remate
Vos deixo p'ra meditar.
Abre-se a mesa ao debate.
Qual de vós quer começar?

14/10/2014
11:41

domingo, agosto 31, 2014

Em coro...

Volvidos vinte e cinco anos de vida,
Medito em tudo quanto me passou;
Do que me entristeceu e me alegrou
Recordo-me com sede desaurida.

Àqueles que, de forma engrandecida,
Partilham com seu ser do ser que sou,
P'lo jeito seu de amar quem os amou,
A gratidão em mim não tem medida.

As paixões que me habitam, poesias
Que oscilam entre assombro e lenidade
Na dança compassada dos meus dias

Sublimam-se nos coros da amizade
Compondo as mais sinceras harmonias
Em partituras de amor e saudade.

31/08/2014
12:12