As palavras que não disse, sei-as bem;
Trago-as no peito guardadas, vil guarida.
Nunca assim me despedisse de ninguém
Com quem andei de mãos dadas pela vida.
Agitam-se em mim ao vento da saudade
As palavras que ficaram por dizer;
De nada vale o lamento que me invade.
O que os meus olhos choraram sem te ver...
Tomara que não sentisse tal tormento
Meu coração em que ecoa a omissão
Das palavras que só disse em pensamento,
Remorso que se amontoa pelo chão.
Se outra morada me espera, junto a ti,
Não tenho em mim a virtude de saber;
Dir-te-ia com voz sincera o que senti,
As palavras que não pude antes dizer.
24/02/2016
22:13
quinta-feira, fevereiro 25, 2016
quarta-feira, fevereiro 24, 2016
Tenha ou não tenha razão.
Mote
Há quem fale à boca cheia
P'ra fazer opinião
De tudo quanto o rodeia
Tenha ou não tenha razão.
I
Quando pequeno escutava
O velho, o rapaz e o burro,
Quadras simples que em sussurro
A minha avó me contava,
Depois de ouvi-las, pensava
Na gente que papagueia
E julgando a vida alheia
Muito fala e pouco diz;
Tanta sentença infeliz,
Há quem fale à boca cheia.
II
Já muita gente o tem dito
De várias formas dif'rentes;
Há quem o diga entre dentes
E quem o clame num grito.
E por isso não hesito
Em repetir o chavão,
Pois qualquer ocasião
Que o assunto me suscite
É para mim um convite
P'ra fazer opinião.
III
Se alguém me diz que obedece
Ao que outros possam dizer,
Que vai deixar de fazer
Por isso o que lhe apetece,
Pois que se acaso o fizesse
E a sentença que receia
Andasse por tuta-e-meia
Nas bocas todas do mundo,
Não fora medo, no fundo,
De tudo quanto o rodeia?
IV
É que ter medo é saudável
Na conta, peso e medida,
E não ter medo da vida
Que alguém julga censurável.
Falar mal é deplorável,
É tacanhez sem visão
E afirmo com prontidão
Que tamanha mesquinhice
Não passa de parvoíce
Tenha ou não tenha razão.
Epílogo
Não faças caso, portanto,
Do que os outros te critiquem;
Não fiques tu no teu canto
Melindrado, eles que fiquem.
24/02/2016
14:48
Há quem fale à boca cheia
P'ra fazer opinião
De tudo quanto o rodeia
Tenha ou não tenha razão.
I
Quando pequeno escutava
O velho, o rapaz e o burro,
Quadras simples que em sussurro
A minha avó me contava,
Depois de ouvi-las, pensava
Na gente que papagueia
E julgando a vida alheia
Muito fala e pouco diz;
Tanta sentença infeliz,
Há quem fale à boca cheia.
II
Já muita gente o tem dito
De várias formas dif'rentes;
Há quem o diga entre dentes
E quem o clame num grito.
E por isso não hesito
Em repetir o chavão,
Pois qualquer ocasião
Que o assunto me suscite
É para mim um convite
P'ra fazer opinião.
III
Se alguém me diz que obedece
Ao que outros possam dizer,
Que vai deixar de fazer
Por isso o que lhe apetece,
Pois que se acaso o fizesse
E a sentença que receia
Andasse por tuta-e-meia
Nas bocas todas do mundo,
Não fora medo, no fundo,
De tudo quanto o rodeia?
IV
É que ter medo é saudável
Na conta, peso e medida,
E não ter medo da vida
Que alguém julga censurável.
Falar mal é deplorável,
É tacanhez sem visão
E afirmo com prontidão
Que tamanha mesquinhice
Não passa de parvoíce
Tenha ou não tenha razão.
Epílogo
Não faças caso, portanto,
Do que os outros te critiquem;
Não fiques tu no teu canto
Melindrado, eles que fiquem.
24/02/2016
14:48
segunda-feira, fevereiro 08, 2016
Depois de ser amor
Depois há sempre um mundo pela frente,
Um cântico de sonhos que emudece
As dúvidas, e o mundo é uma prece
Ao panteão do amor incandescente.
Depois há horizontes, outra gente,
Ruído que se instala e prevalece
Durante um escasso instante e entorpece
A lúcida ilusão de estar contente.
Não é depois que a vida se revela;
A vida é toda aqui, é toda agora,
E agora não quer medo nem cautela.
Depois de ser amor, que importa a hora,
É já o amor farol e sentinela
E bênção que se abraça e se demora.
18/12/2015
11:49
(Pela ocasião do casamento de dois queridos amigos.)
Um cântico de sonhos que emudece
As dúvidas, e o mundo é uma prece
Ao panteão do amor incandescente.
Depois há horizontes, outra gente,
Ruído que se instala e prevalece
Durante um escasso instante e entorpece
A lúcida ilusão de estar contente.
Não é depois que a vida se revela;
A vida é toda aqui, é toda agora,
E agora não quer medo nem cautela.
Depois de ser amor, que importa a hora,
É já o amor farol e sentinela
E bênção que se abraça e se demora.
18/12/2015
11:49
(Pela ocasião do casamento de dois queridos amigos.)
sábado, fevereiro 06, 2016
Sonhar além do sonho porque existo
Quem sou? Que faço aqui? P'ra onde vou?
Que forças me comandam e atordoam?
O que é esta impressão de ser quem sou?
Que seres tão distintos me povoam?
Que destino me quer aqui agora
Quando ontem nada o fazia prever?
De que é feita a tristeza que se chora
E a alegria que rimos com prazer?
Quem são todos os outros que comigo
Partilham dos mistérios de ser vivo?
Quem pensa de antemão tudo o que digo
E toma as decisões a que me esquivo?
Que imensa maravilha estar aqui,
Sonhar além do sonho porque existo:
Eu venho das perguntas que inquiri
E vou rumando às respostas que avisto.
06/02/2016
14:33
Que forças me comandam e atordoam?
O que é esta impressão de ser quem sou?
Que seres tão distintos me povoam?
Que destino me quer aqui agora
Quando ontem nada o fazia prever?
De que é feita a tristeza que se chora
E a alegria que rimos com prazer?
Quem são todos os outros que comigo
Partilham dos mistérios de ser vivo?
Quem pensa de antemão tudo o que digo
E toma as decisões a que me esquivo?
Que imensa maravilha estar aqui,
Sonhar além do sonho porque existo:
Eu venho das perguntas que inquiri
E vou rumando às respostas que avisto.
06/02/2016
14:33
domingo, janeiro 24, 2016
Sentido.
Por saber que a vida é breve
É que o meu ser se angustia
Na busca de outro sentido
No poema que se escreve,
Nos braços da melodia,
Num pensamento atrevido...
De vez em quando a razão,
Na frieza que lhe é cara,
Revela-me o que já sei:
Que ando atrás duma ilusão
E a vida não desmascara
As sombras em que eu cismei.
Pois se é na sombra que vivo
De uma luz que não conheço
Procuro dentro de mim:
Eu mesmo invento o motivo,
Que eu de tudo sou começo
Como de tudo sou fim.
23/01/2016
16:15
É que o meu ser se angustia
Na busca de outro sentido
No poema que se escreve,
Nos braços da melodia,
Num pensamento atrevido...
De vez em quando a razão,
Na frieza que lhe é cara,
Revela-me o que já sei:
Que ando atrás duma ilusão
E a vida não desmascara
As sombras em que eu cismei.
Pois se é na sombra que vivo
De uma luz que não conheço
Procuro dentro de mim:
Eu mesmo invento o motivo,
Que eu de tudo sou começo
Como de tudo sou fim.
23/01/2016
16:15
sábado, janeiro 23, 2016
Quebranto.
Quem foi que prometeu e por que lei
Nos convenceu que bastava a promessa?
Quem foi que fez da dúvida inconfessa
Certeza em que tão firme acreditei?
Quem foi que apregoou de boca cheia?
Quis com pregões matar a nossa fome?
Quem foi que deu às palavras o nome?
Seduz-me com seus cantos de sereia...
Quem foi que nos roubou ao nosso abrigo
E ao mundo nos lançou desamparados?
Quem foi que cometeu tantos pecados
E encontra a expiação no meu castigo?
23/01/2016
10:20
Nos convenceu que bastava a promessa?
Quem foi que fez da dúvida inconfessa
Certeza em que tão firme acreditei?
Quem foi que apregoou de boca cheia?
Quis com pregões matar a nossa fome?
Quem foi que deu às palavras o nome?
Seduz-me com seus cantos de sereia...
Quem foi que nos roubou ao nosso abrigo
E ao mundo nos lançou desamparados?
Quem foi que cometeu tantos pecados
E encontra a expiação no meu castigo?
23/01/2016
10:20
quarta-feira, janeiro 20, 2016
Bússola.
Abraça-me esta noite de cansaço,
De frio que me não deixa sossegar;
Um gesto é só que basta p'ra sonhar
Que vida não é mais do que esse abraço.
Ampara-me em teu colo generoso
Nesta amizade pura que nos une,
Não deixes que esta mágoa seja impune
No rosto que contorço lacrimoso.
Agarra-me estas mãos desfalecidas
E diz-me que o caminho é muito mais,
Que além dos tropeções e vendavais
Assomam-se já graças prometidas.
Afaga-me o cabelo e, por favor,
Sorri como só tu sabes sorrir;
Ensina-me a chegar após partir:
És hoje a minha bússola de amor.
20/01/2016
18:16
De frio que me não deixa sossegar;
Um gesto é só que basta p'ra sonhar
Que vida não é mais do que esse abraço.
Ampara-me em teu colo generoso
Nesta amizade pura que nos une,
Não deixes que esta mágoa seja impune
No rosto que contorço lacrimoso.
Agarra-me estas mãos desfalecidas
E diz-me que o caminho é muito mais,
Que além dos tropeções e vendavais
Assomam-se já graças prometidas.
Afaga-me o cabelo e, por favor,
Sorri como só tu sabes sorrir;
Ensina-me a chegar após partir:
És hoje a minha bússola de amor.
20/01/2016
18:16
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