sábado, novembro 05, 2016

Amo em qualquer lugar...

Via
Entre as coisas banais
Dos dias sempre iguais
Os sonhos que jamais
Poderiam nascer;
Dias
De eternos rituais
E repetidos ais
E gestos virtuais
Que nos querem dizer

Todo o tempo encalhado
Na promessa de acontecer.

Pasmam frente ao passado
As horas
De um futuro adiado
Agora,
Vida fora em cuidados
Que penhoram
Tantos dias parados
Em demoras.

Quero e não quero partir;
Vou mas não posso chegar,
Interminável a procurar
Existir
Sem me evitar:
Hoje vou cantar!



Não
Dizer adeus não vou,
Ainda não acabou
Esta canção que ousou
Acordar minha voz.
São
As notas vendavais,
Silêncios magistrais,
São bolas de cristal
Que nos mostram assim

O ser arrebatado
Na iminência feliz de um fim.

Voa o sonho sem ver
As horas
Num presente ancorado
Agora,
E a promessa de ser
P'la vida fora
Esta força, este brado
Sem demoras...

Quero e vou mesmo partir;
Vou ainda hoje chegar;
Sei por onde ir, é só mesmo andar.
Rir, chorar
De tanto amar
Em qualquer lugar.

Amo em qualquer lugar...

05/11/2016
12:58

Valsa dos Mal-Amados

Uma história curta
Feita muito à bruta
E sem nenhum zelo;
Um conto de fadas
Que em menos de nada
Vira um pesadelo;
As vidas à toa
De duas pessoas
Buscando sentido,
Toscas tentativas
Que as lança à deriva
P'lo tempo perdido.

Conheceram-se ontem
E, embora defrontem
Reiterados cios,
Já paixões abundam
E os dois aprofundam
Os seus desvarios,
Que a paixão é cega
Nessa cega-rega
De lençóis e lua;
Fazem às escuras
Impensadas juras
Pela noite nua.

Depois vem o dia
E o que foi magia
Perde o seu encanto;
Dúvidas assaltam
Defeitos se exaltam,
Parece quebranto...
Muita expectativa
Esgota-se lasciva
Na noite anterior...
Tanto que se espera
E afinal não era
Este o grande amor.

A fábula é clara
Quando a gente pára
P'ra pensar um pouco:
Tantas investidas,
Coisas repetidas,
São artes de um louco;
Que a solidão custa
E inovar assusta
Quem nunca tentou...
Vão às cabeçadas
Repetir, coitadas,
O erro que as tramou.

03/11/2016
15:47

quinta-feira, novembro 03, 2016

Quadras ao Acaso

Não conheço outra vontade,
Outro desígnio maior;
Por mais que lute ou que brade
O acaso leva a melhor.

Mereci marés de sorte,
Cruzei azares à toa;
Não há destino mais forte
Quando o acaso atraiçoa.

Do mundo não me apodero
Que o mundo nunca foi nosso:
Tudo o que posso e não quero,
Tanto que eu quero não posso.

12/06/2016
14:41

quarta-feira, junho 15, 2016

Remorso

Era um dia tão cinzento
Como outros dias de Outono
E o céu chorava de mágoas;
Era o eco de um lamento
De uns olhos ao abandono
Lavados nas suas águas.

As chicotadas do vento
Mal as sentia, irrisórias
Ante os remorsos da vida;
Torturas que em pensamento
Arrastam duras memórias
De uma alma arrependida.

Desse Outono era refém
E chorava por ter feito
Tanto mal no seu passado...
Não há sol para quem tem
Nos escombros do seu peito
Um coração tão pesado.

14/06/2016
15:25

terça-feira, abril 05, 2016

Encontrei-me hoje contigo

Encontrei-me hoje contigo
Num sonho que a noite trouxe
E o acordar foi castigo...
Tomara que assim não fosse.

Conversámos cara a cara
Completamente alheados
Do abismo que te separa
Dos meus olhos acordados.

Nem sequer nos despedimos
Como se nunca acabasse
E, quando os olhos abrimos,
O sonho não se fechasse.

Em sonhos não há distância,
Não há destino nem sorte,
E é eterna a nossa infância,
E é mentira a nossa morte.

05/04/2016
14:12

Capricho.

De vez em quando dá-me uma vontade
Imensa de escrever seja o que for;
Talvez eu tenha veia de escritor
Que quando pulsa o espírio me invade.

Não é que me incomode ou desagrade,
Só nem sempre me encontro ao seu dispor,
Mas se eu tento calar esse rumor
Com mais força o seu canto persuade.

De nada serve nada do que tento
E sei que no final me vou render
Àquele irresistível chamamento,

Que agora, se me apetece escrever,
O que eu tiver em mãos nesse momento
Já não importa e fica por fazer.

05/04/2016
01:38

sexta-feira, março 04, 2016

Todos os nomes

Todos os nomes que usamos
Padecem do mesmo mal:
Quando ao dizê-los, criamos
O que julgamos real.

Toda a exp'riência remete
Para a palavra que a exprime,
E todo o nome comete
Ao nascer o mesmo crime.

Chamam-se nomes a tudo
Quanto o ser experimenta;
São nomes o conteúdo
Do mundo que assim se inventa.

Vemos, pensamos, sentimos,
Vivemos em abundância,
E aquilo que transmitimos
São nomes sem substância.

Nome nenhum compreende
O que pretende dizer;
Não há nome que desvende
A maravilha do ser.

Todos os nomes são ocos
Por muito que teorizem,
Os nomes são sempre poucos
Para o pouco que nos dizem.

04/03/2016
02:23