Frestas de luz desvendam um caminho sinuoso.
Vêm do postigo que alguém compassivo cuidou de entreabrir,
Algum foragido morador ou apenas a ventania zelosa.
Em passos cautelosos, embrenho-me na escuridão do corredor,
Frio, inóspito, vazio…
A mão, que se aquecia no bolso, apalpa agora as rugosas paredes,
Guiando na sombra os olhos que a não podem ver.
A humidade resvala pelas arestas,
E embora a treva não permita que se enxergue,
O tecto é um tapete esverdeado de musgo já sem idade.
Um fugaz relâmpago oferece o mais imperceptível lampejo da passagem:
Duas paredes rigorosamente paralelas cujo término fica para além do alcance da vista;
Um tecto abaulado que, agora sim, se verifica coberto de verde carapinha;
E uma quase irreal extensão de chão tosco que se encaminha em direcção a nada.
Cada passo é uma gota de suor que me escorre pela testa,
E a cada passo, inexprimível consternação, tenho que recordar-me do meu propósito.
‘Já falta pouco’, minto a mim próprio,
Os lábios tremendo de sede e de ansiedade.
‘Vai valer a pena’, insisto em convencer-me,
As pernas cansadas da caminhada.
‘Nada se faz sem esforço’, torno a dizer,
Mas a mente é agora um local inabitável.
Tombam os joelhos sobre o implacável pavimento,
As mãos agarram os cabelos,
E os cotovelos erguidos soltam clamores que a voz já não consegue.
Do último relâmpago, já só se ouviu o estrondo do trovão,
Diluída a sua parca luminosidade pela bruma inescrutável,
Afinal única residente naquele lugar maldito.
O cenário é agora um turbilhão de sufocante opacidade;
Afinal, é apenas a visão que se turva e dá forma àquilo que não pode auscultar,
Dois olhos vidrados na inalcançável recompensa,
Lágrimas que se perfilam nas faces geladas,
E esta endemoninhada vontade de que tudo termine ainda antes de ter começado.
‘É hora’, julgo ouvir num murmúrio,
Pouco mais do que uma aragem, estreita, vacilante.
Involuntariamente, estou novamente erguido,
Mas já não caminho:
Corro, galopo, voo para o indelével derradeiro,
Para essa, afinal, tão ansiada vitória,
Essa meta que é unicamente minha, só de mim, exclusiva…
Ao fundo do corredor da morte,
Estende-se uma estrada de vida,
Ainda que intangível,
Viva.
20/11/2007
18:56
quinta-feira, novembro 22, 2007
terça-feira, novembro 20, 2007
Poetas escritos, poemas encarnados...
Os poemas são poetas escritos.
Toda a lírica não mais é do que a découpage de uma alma numa página antes opaca,
Plena logo de tonalidades translúcidas,
Complacentes miragens residuais do frívolo artífice que lhes deu aparência,
Moldando-as a tinta como um escultor talha a pedra com o cinzel,
Ou simplesmente como um qualquer deus distraído,
Que tropeça na sua própria ausência deixando cair dos braços um big-bang de múltiplos quase-nadas,
Vibrações e impressão de familiaridade que nos habitam à socapa,
Na mordaz tentativa de nos converter em algo mais do que meramente humano,
Empresa demasiado auspiciosa para ser conduzida sem despiste.
Os poetas são poemas encarnados.
Todo o louco não mais é do que a soma de toda a lucidez,
Demasiado avultada para se contentar com um lugar na plateia,
Já que, afinal, verdadeiro lugar de espectador apenas ao intemporal tempo cabe,
Esse desonroso almocreve, senhor de infinitas searas,
Que aluga ceifeiras nas breves temporadas de colheita,
Mandando-as depois de volta ao nada que sempre foram,
Ilusão de profundidade e elegia do divino.
No fundo,
Todo o poeta se escreve,
Todo o poema o encarna.
19/11/2007
5:14
Toda a lírica não mais é do que a découpage de uma alma numa página antes opaca,
Plena logo de tonalidades translúcidas,
Complacentes miragens residuais do frívolo artífice que lhes deu aparência,
Moldando-as a tinta como um escultor talha a pedra com o cinzel,
Ou simplesmente como um qualquer deus distraído,
Que tropeça na sua própria ausência deixando cair dos braços um big-bang de múltiplos quase-nadas,
Vibrações e impressão de familiaridade que nos habitam à socapa,
Na mordaz tentativa de nos converter em algo mais do que meramente humano,
Empresa demasiado auspiciosa para ser conduzida sem despiste.
Os poetas são poemas encarnados.
Todo o louco não mais é do que a soma de toda a lucidez,
Demasiado avultada para se contentar com um lugar na plateia,
Já que, afinal, verdadeiro lugar de espectador apenas ao intemporal tempo cabe,
Esse desonroso almocreve, senhor de infinitas searas,
Que aluga ceifeiras nas breves temporadas de colheita,
Mandando-as depois de volta ao nada que sempre foram,
Ilusão de profundidade e elegia do divino.
No fundo,
Todo o poeta se escreve,
Todo o poema o encarna.
19/11/2007
5:14
terça-feira, novembro 13, 2007
Grito
Dispo a minha liberdade
De vergonhas ilusórias
Abro os braços à verdade
Faço limpeza à memória
E grito baixinho
Um grito contido
Que foi por carinho
Na mente perdido
Rasgo a raiva e o medo
Solto-me de preconceitos
Liberto o estranho segredo
Desobedeço aos preceitos
E grito bem alto
Um grito escondido
E que foi de assalto
Grito adormecido
Pinto com todas as cores
Sinto com todo o meu ser
Provo todos os sabores
Transbordo sem me conter
E grito afinal
Um grito afirmado
Que foi ideal
Enfim proclamado
E grito e não cesso
Porque a voz é minha
Grito e despeço
A prisão que tinha
06/10/2004
De vergonhas ilusórias
Abro os braços à verdade
Faço limpeza à memória
E grito baixinho
Um grito contido
Que foi por carinho
Na mente perdido
Rasgo a raiva e o medo
Solto-me de preconceitos
Liberto o estranho segredo
Desobedeço aos preceitos
E grito bem alto
Um grito escondido
E que foi de assalto
Grito adormecido
Pinto com todas as cores
Sinto com todo o meu ser
Provo todos os sabores
Transbordo sem me conter
E grito afinal
Um grito afirmado
Que foi ideal
Enfim proclamado
E grito e não cesso
Porque a voz é minha
Grito e despeço
A prisão que tinha
06/10/2004
quinta-feira, outubro 25, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
Vários extraordinários...
Vejo o mundo
De óculos escuros
Deste fundo
Escondido entre braços
No vaivém dos meus passos
Vejo tectos, vejo muros
No vaivém dos meus passos
Só me confundo
Mais
Rasgo a morte
Deito-me ao relento
Sigo à sorte
Perdido dos dias
No rumor de um sentimento
Vejo paredes vazias
No rumor de um sentimento
Só perco o Norte
Mais
Rumo ao vento
O sinal vermelho
É cinzento
Como a minha estrada
No sopé da madrugada
Vejo gárgulas no espelho
No sopé da madrugada
Morre o alento
Mais
Mais vale ser
Um ser extraordinário
P’ra poder ver
Ler as vidas ao contrário
Sem receber
Férias pagas e um salário
Somos todos extraordinários
P’r’a fogueira com os dicionários
Basta de conclaves e plenários
Sejamos vários
Mais
19/10/2007
20:47
De óculos escuros
Deste fundo
Escondido entre braços
No vaivém dos meus passos
Vejo tectos, vejo muros
No vaivém dos meus passos
Só me confundo
Mais
Rasgo a morte
Deito-me ao relento
Sigo à sorte
Perdido dos dias
No rumor de um sentimento
Vejo paredes vazias
No rumor de um sentimento
Só perco o Norte
Mais
Rumo ao vento
O sinal vermelho
É cinzento
Como a minha estrada
No sopé da madrugada
Vejo gárgulas no espelho
No sopé da madrugada
Morre o alento
Mais
Mais vale ser
Um ser extraordinário
P’ra poder ver
Ler as vidas ao contrário
Sem receber
Férias pagas e um salário
Somos todos extraordinários
P’r’a fogueira com os dicionários
Basta de conclaves e plenários
Sejamos vários
Mais
19/10/2007
20:47
domingo, outubro 21, 2007
Tripla.
I
As Palavras
Nos abismos que o poema dilacera e acalenta
E nos sismos improváveis dessa espera desatenta
Vivem lírios de palavras resgatadas ao bafio
Como círios que alumiam as estradas do vazio
II
Os Números
Moram números avulsos nos meandros dos poemas
Em inúmeros impulsos que se despem das algemas
Quando a rábula transpira no pulsar das entrelinhas
E essa fábula respira matemáticas vizinhas
III
O Poema
Certas noites libertinas de incertezas naturais
Seguem pares concubinas de naturezas duais
Numa marcha lesta infinda de preceitos radicais
E o poema enfim deslinda os conceitos litorais
19/10/2007
2:18
As Palavras
Nos abismos que o poema dilacera e acalenta
E nos sismos improváveis dessa espera desatenta
Vivem lírios de palavras resgatadas ao bafio
Como círios que alumiam as estradas do vazio
II
Os Números
Moram números avulsos nos meandros dos poemas
Em inúmeros impulsos que se despem das algemas
Quando a rábula transpira no pulsar das entrelinhas
E essa fábula respira matemáticas vizinhas
III
O Poema
Certas noites libertinas de incertezas naturais
Seguem pares concubinas de naturezas duais
Numa marcha lesta infinda de preceitos radicais
E o poema enfim deslinda os conceitos litorais
19/10/2007
2:18
sexta-feira, outubro 19, 2007
Subamos (a escada)...
Então subamos
As escadas que o amor nos impinge
Em corrida veloz como quem finge
Ter pressa de chegar à sua porta
Senão vejamos
São sempre águas moles em pedras duras
Em rampas percorridas às escuras
Em busca da paixão que ali jaz morta
Trocam-se as voltas
Num rodopio que joga às escondidas
Por becos, praças, ruas e avenidas
Com esperança de tropeçar na verdade
Com frases soltas
Constroem-se rimas ao desbarato
E soltam-se as pedras do meu sapato
P’ra “dar o corte” com impunidade
Portões cerrados
Após vender negativas em saldo
Sem sequer dar espaço p’ra o rescaldo
Abafam-se as memórias num caixote
Braços atados
Atrás das costas destas contingências
E nem se leva a cabo diligências
Com medo de afoitar mais o chicote
Então subamos
Mais uma vez por essa escadaria
Façamos dela o pão de cada dia
Voando entre os degraus a derrapar
E nisto andamos
Uma vida inteira atrás duma vida
Que nos preencha o feitio e a medida
Sem sequer aprender o que é amar
15/10/2007
21:44
As escadas que o amor nos impinge
Em corrida veloz como quem finge
Ter pressa de chegar à sua porta
Senão vejamos
São sempre águas moles em pedras duras
Em rampas percorridas às escuras
Em busca da paixão que ali jaz morta
Trocam-se as voltas
Num rodopio que joga às escondidas
Por becos, praças, ruas e avenidas
Com esperança de tropeçar na verdade
Com frases soltas
Constroem-se rimas ao desbarato
E soltam-se as pedras do meu sapato
P’ra “dar o corte” com impunidade
Portões cerrados
Após vender negativas em saldo
Sem sequer dar espaço p’ra o rescaldo
Abafam-se as memórias num caixote
Braços atados
Atrás das costas destas contingências
E nem se leva a cabo diligências
Com medo de afoitar mais o chicote
Então subamos
Mais uma vez por essa escadaria
Façamos dela o pão de cada dia
Voando entre os degraus a derrapar
E nisto andamos
Uma vida inteira atrás duma vida
Que nos preencha o feitio e a medida
Sem sequer aprender o que é amar
15/10/2007
21:44
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