Lanço a semente da palavra em funda leira
Que a muitas vozes a mão lavra, habilidosa
Sob o sol quente que ilumina a Terra inteira
Em franjas soltas de cortina luminosa.
Em jorros frescos, fresca água se derrama
De uma frescura que é de mágoa dissipada
Alimentando mil rebentos que declama
A terra mãe dos alimentos, voz amada.
É dia, é noite, é dia novo, e a colheita
Faz-se de histórias deste povo e dos seus fados
E é só depois dos seus labores que se deita
Para sorver os mais sabores cultivados.
Conta-me a lenda verdadeira da semente
Que habita os olhos da ceifeira e do pastor;
A terra escrita nas artérias desta gente,
Palavras ricas de misérias e de amor.
Canta-me as velhas ladainhas dos avós
Tornadas novas pelas linhas desta mão,
Mão com que agarro firmemente a sua voz
E com que devolvo a semente ao mesmo chão.
03/05/2010
18:40
quinta-feira, maio 27, 2010
sábado, maio 22, 2010
Epitáfio - A Fervura das Artérias
Quando a olhei, sem qualquer reserva nem temor, olhos fixos nos seus não-olhos e um imenso abismo inescrutável nos intersticiais centímetros que nos separavam, contra todas as expectativas, até mesmo as mais favoráveis, nada aconteceu. O vento soprou da mesma forma morna e vagarosa e, da mesma forma, ao seu sabor se agitaram copas e ramagens, arbustos, estevas e silvados; o sol manteve-se firme no seu frágil zénite de inverno, e a lua espreitava, imóvel, por detrás de um canavial, ambos alheios aos volúveis destinos dos homens. O incêndio, esse lavrava o espesso mato a um ritmo estonteante, como se acordado fora de um demorado sono de abstinência e jejum e quisesse agora compensar de um tão esforçado hiato o seu voraz apetite, devorando, em labaredas frias, hectares a perder de vista de pinheiros e eucaliptos com a ligeireza de quem trinca uma maçã e sente o seu sumo a escorrer-lhe pela face, agridoce.
Olhei-a, dizia eu, desafiando tudo aquilo que representava e, repito, sem o temer, talvez à custa de fantasmas que me assombravam o discernimento ou de areias caídas de uma ampulheta já quebrada, embora ainda poderosas fossem as suas influências no marulhar indeterminado do agora. Quem teme, teme o que desconhece, o que não pode conhecer, e também aquilo que, conhecendo, não compreende; veja-se o exemplo do exemplar cristão que a Deus é temente sem que da noção do divino tenha real entendimento. Como poderia eu temer aquilo que tão intensamente conhecera e tão profundamente compreendera, ainda que na memória se materializassem todas as dores sofridas e não sofridas que a tomada de consciência acarretara, suplício de ignomínias indizíveis?
Falo-vos, pois bem, do meu duelo muito pessoal com esse inominável ceifeiro de almas que, sem prévio aviso ou abertura ao diálogo e, porventura, a uma negociação que pudesse suprir as vontades de ambas as partes, desempenha o seu singular ofício, único nos vários planos espalhados, ao longo das eras, pelas mais diversas e criativas mitologias: paraísos, infernos, purgatórios e olimpos. Versado que me considero em vocabulário menos vernáculo e em construções sintácticas de complexidade acrescida, coordenando e subordinando orações ao sabor de um bel-prazer inconstante e caprichoso, não posso, ainda assim, assegurar que o meu discurso faça verdadeira justiça às sensações e aos cenários que senti e a que assisti, indício de um não sei quê de transcendente no assunto que discorro.
Olhei-a, dizia eu, desafiando tudo aquilo que representava e, repito, sem o temer, talvez à custa de fantasmas que me assombravam o discernimento ou de areias caídas de uma ampulheta já quebrada, embora ainda poderosas fossem as suas influências no marulhar indeterminado do agora. Quem teme, teme o que desconhece, o que não pode conhecer, e também aquilo que, conhecendo, não compreende; veja-se o exemplo do exemplar cristão que a Deus é temente sem que da noção do divino tenha real entendimento. Como poderia eu temer aquilo que tão intensamente conhecera e tão profundamente compreendera, ainda que na memória se materializassem todas as dores sofridas e não sofridas que a tomada de consciência acarretara, suplício de ignomínias indizíveis?
Falo-vos, pois bem, do meu duelo muito pessoal com esse inominável ceifeiro de almas que, sem prévio aviso ou abertura ao diálogo e, porventura, a uma negociação que pudesse suprir as vontades de ambas as partes, desempenha o seu singular ofício, único nos vários planos espalhados, ao longo das eras, pelas mais diversas e criativas mitologias: paraísos, infernos, purgatórios e olimpos. Versado que me considero em vocabulário menos vernáculo e em construções sintácticas de complexidade acrescida, coordenando e subordinando orações ao sabor de um bel-prazer inconstante e caprichoso, não posso, ainda assim, assegurar que o meu discurso faça verdadeira justiça às sensações e aos cenários que senti e a que assisti, indício de um não sei quê de transcendente no assunto que discorro.
quinta-feira, abril 15, 2010
Anzol.
I
Há peixe nas redes
E os braços contorcem-se na agitação
Sem paredes
Da embarcação.
Há que tornar ao casco encharcado do navio
As peças frescas de pescado
Subtraídas ao rio.
Poderia ser um oceano interminável;
Porém, os melindres da rima
Fazem-no simples rio navegável:
Rio abaixo, rio acima,
Nesta incessante azáfama piscatória
De que não há memória canseira igual...
Afinal, na correria extenuante
Que é, da traineira, sustento,
Toda e qualquer brincadeira
É uma roleta russa que gira,
Um pontapé de bicicleta na pira no próprio umbigo.
Há perigo de aluimento
E o vento que arrasa e desfaz
Todo e qualquer incapaz
Que ouse armar-se em audaz
Num mecanismo que não compreende,
Que transcende a polpa e a culpa e o heroísmo.
II
A lota marulha, abarrota
Da fome criminosa da patrulha
Na madrugada sinuosa.
Das águas chegam marítimos
Com os seus tesouros ilegítimos,
Colhendo os louros da chacina inimputável
De que foram protagonistas,
Contrabandistas da incontestável providência das ondas,
Credores da impaciência de gentes de almas redondas,
Indistintas,
Retorcidas esporas da incerteza
De muitas horas famintas.
III
Hoje há mercado na aldeia.
Compra-se o pescado e o roubado;
A miséria regateia
E o preço oscila conforme os dentes da alcateia;
Fazem fila os clientes
E, por mais que empurrem e reclamem,
Por mais nomes que chamem e pragas que roguem,
Por mais que se afoguem e se esfolem e distribuam sabotagem,
Continuam em clara desvantagem,
E nem boicote, nem decote,
Nem ameaça, nem chicote,
Os resgata à crassa desgraça
Feita espectáculo na praça dos saltimbancos.
A garra, a presa, o tentáculo,
E o patrão do tabernáculo
Que se lambuza das mais tenras postas
Tem olhos nas costas
Se a situação é intrusa
E as chaves todas na mão
Das celas da sua prisão
E todas as velas e motores
De todos os pescadores do seu batalhão.
"Um passo em falso e sobes ao cadafalso. Palhaço! Brinquedo!
Domina o teu medo e engole o orgulho,
Ensaia o mergulho e faz-te à vida.
Não faças tanto barulho,
Não comas tanta comida.
Eu sou teu amo e senhor,
Sejas tu soberano ou pescador.
Por isso, humano, lança-me os barcos ao mar,
Aprende a navegar e faz-te alguém
Em vez de vires espalhar o teu desdém
Por quem de ti se alimenta
Por ser o rei leão desta selva
Que não conhece outra cor
Senão a cinzenta, pescador!"
IV
Tenho três filhos e uma sardinha.
Da espinha faço um caldo;
Escaldo o pão duro na água imunda do poço
E o pescoço fica para o gato
E a sua pelica e corcunda.
Três ervilhas no prato para três filhas,
E o resto do vinho para o vizinho entrevado,
Ainda ontem homem rijo
E hoje sujo e acabado,
Velho marujo atracado num esconderijo arruinado.
Vim do mercado de mãos vazias.
As bancadas frias escondiam-se para lá da multidão esfomeada,
Um regimento inteiro à procura de alimento,
Que não encontra nada
Na escura consternação, no vão lamento
Da madrugada madura.
Amanhã regresso,
Repito o processo,
Aflito da pobreza que me assombra.
Só a fé me move ainda nesta tristeza
Que chove dos olhos cansados
Em molhos de sonhos arrancados pela raiz.
Estou velho como o vizinho,
Infeliz,
Sozinho, vencido,
Parco pai e fraco marido,
Perdido num covil de feras das mais selvagens e ferozes,
Atrozes, que devoram pastagens e aldeias,
Que consomem as Primaveras alheias
E desfilam com as suas barrigas cheias.
14/04/2010
18:06
Há peixe nas redes
E os braços contorcem-se na agitação
Sem paredes
Da embarcação.
Há que tornar ao casco encharcado do navio
As peças frescas de pescado
Subtraídas ao rio.
Poderia ser um oceano interminável;
Porém, os melindres da rima
Fazem-no simples rio navegável:
Rio abaixo, rio acima,
Nesta incessante azáfama piscatória
De que não há memória canseira igual...
Afinal, na correria extenuante
Que é, da traineira, sustento,
Toda e qualquer brincadeira
É uma roleta russa que gira,
Um pontapé de bicicleta na pira no próprio umbigo.
Há perigo de aluimento
E o vento que arrasa e desfaz
Todo e qualquer incapaz
Que ouse armar-se em audaz
Num mecanismo que não compreende,
Que transcende a polpa e a culpa e o heroísmo.
II
A lota marulha, abarrota
Da fome criminosa da patrulha
Na madrugada sinuosa.
Das águas chegam marítimos
Com os seus tesouros ilegítimos,
Colhendo os louros da chacina inimputável
De que foram protagonistas,
Contrabandistas da incontestável providência das ondas,
Credores da impaciência de gentes de almas redondas,
Indistintas,
Retorcidas esporas da incerteza
De muitas horas famintas.
III
Hoje há mercado na aldeia.
Compra-se o pescado e o roubado;
A miséria regateia
E o preço oscila conforme os dentes da alcateia;
Fazem fila os clientes
E, por mais que empurrem e reclamem,
Por mais nomes que chamem e pragas que roguem,
Por mais que se afoguem e se esfolem e distribuam sabotagem,
Continuam em clara desvantagem,
E nem boicote, nem decote,
Nem ameaça, nem chicote,
Os resgata à crassa desgraça
Feita espectáculo na praça dos saltimbancos.
A garra, a presa, o tentáculo,
E o patrão do tabernáculo
Que se lambuza das mais tenras postas
Tem olhos nas costas
Se a situação é intrusa
E as chaves todas na mão
Das celas da sua prisão
E todas as velas e motores
De todos os pescadores do seu batalhão.
"Um passo em falso e sobes ao cadafalso. Palhaço! Brinquedo!
Domina o teu medo e engole o orgulho,
Ensaia o mergulho e faz-te à vida.
Não faças tanto barulho,
Não comas tanta comida.
Eu sou teu amo e senhor,
Sejas tu soberano ou pescador.
Por isso, humano, lança-me os barcos ao mar,
Aprende a navegar e faz-te alguém
Em vez de vires espalhar o teu desdém
Por quem de ti se alimenta
Por ser o rei leão desta selva
Que não conhece outra cor
Senão a cinzenta, pescador!"
IV
Tenho três filhos e uma sardinha.
Da espinha faço um caldo;
Escaldo o pão duro na água imunda do poço
E o pescoço fica para o gato
E a sua pelica e corcunda.
Três ervilhas no prato para três filhas,
E o resto do vinho para o vizinho entrevado,
Ainda ontem homem rijo
E hoje sujo e acabado,
Velho marujo atracado num esconderijo arruinado.
Vim do mercado de mãos vazias.
As bancadas frias escondiam-se para lá da multidão esfomeada,
Um regimento inteiro à procura de alimento,
Que não encontra nada
Na escura consternação, no vão lamento
Da madrugada madura.
Amanhã regresso,
Repito o processo,
Aflito da pobreza que me assombra.
Só a fé me move ainda nesta tristeza
Que chove dos olhos cansados
Em molhos de sonhos arrancados pela raiz.
Estou velho como o vizinho,
Infeliz,
Sozinho, vencido,
Parco pai e fraco marido,
Perdido num covil de feras das mais selvagens e ferozes,
Atrozes, que devoram pastagens e aldeias,
Que consomem as Primaveras alheias
E desfilam com as suas barrigas cheias.
14/04/2010
18:06
segunda-feira, abril 12, 2010
À Noite.
Vou destas palavras graves
Ao mar dos sons que me cantas
E ao temporal que levantas
Co'a voz do choro das aves.
Vou do meu peito deserto
Ao bosque pecaminoso
Que ao teu olhar luminoso
Se entrega aberto.
Vou neste langor estupendo
Ao cabo dos tempos por vir;
Vou sem ver que vou correndo,
Tropeço e não chego a cair.
Ergue o farol que me guia
Pois que o sol é só de dia
E a noite é tua prisioneira
Viúva e solteira
Nesta tempestade...
Que noite é a cara metade
Da tua vontade guerreira?
E em que noites se esconde a verdade?
Qual das noites de sensualidade
É noite inteira?
Vou no sabor das correntes,
Na rebentação das horas;
Sou peixe vão que devoras
Nas vagas de horas pendentes.
Vou do teu forte rochoso
Ao sal que o mar lhe conquista,
Ao limo a perder de vista
Do teu ser viscoso.
12/04/2010
15:05
Ao mar dos sons que me cantas
E ao temporal que levantas
Co'a voz do choro das aves.
Vou do meu peito deserto
Ao bosque pecaminoso
Que ao teu olhar luminoso
Se entrega aberto.
Vou neste langor estupendo
Ao cabo dos tempos por vir;
Vou sem ver que vou correndo,
Tropeço e não chego a cair.
Ergue o farol que me guia
Pois que o sol é só de dia
E a noite é tua prisioneira
Viúva e solteira
Nesta tempestade...
Que noite é a cara metade
Da tua vontade guerreira?
E em que noites se esconde a verdade?
Qual das noites de sensualidade
É noite inteira?
Vou no sabor das correntes,
Na rebentação das horas;
Sou peixe vão que devoras
Nas vagas de horas pendentes.
Vou do teu forte rochoso
Ao sal que o mar lhe conquista,
Ao limo a perder de vista
Do teu ser viscoso.
12/04/2010
15:05
sexta-feira, abril 09, 2010
Diapositivo.
Grito ao ouvido:
"Bandido
Que roubas as folhas todas de Outono
Detido em estrondo,
Redondo embalo...
Se me não calo, se não me abandono,
Se não respondo à orla dos sentidos.
Foge-te o chão dos pés descalços
(Cólera na boca,
A tíbia entalada em tectos-falsos
De louca, alucinada
E rouca, fatigada,
Pouca mas prendada
Mãe que lhe conhece o fado...)
Vendado destino que o olha de lado.
05/04/2010
22:55
"Bandido
Que roubas as folhas todas de Outono
Detido em estrondo,
Redondo embalo...
Se me não calo, se não me abandono,
Se não respondo à orla dos sentidos.
Foge-te o chão dos pés descalços
(Cólera na boca,
A tíbia entalada em tectos-falsos
De louca, alucinada
E rouca, fatigada,
Pouca mas prendada
Mãe que lhe conhece o fado...)
Vendado destino que o olha de lado.
05/04/2010
22:55
sábado, março 27, 2010
Tráfego.
Há linhas pintadas na estrada
Com tinta invisível,
Manchadas da cor combustível
Na berma entornada;
Percorre-as o ser indisposto
Do medo estampado no rosto,
Da dúvida presa, indizível
À boca fechada.
À margem tropeça a vontade
Por trilhos sem dono
E o cheiro da tinta sem sono
Polui a cidade
Das sendas, dos arruamentos;
Desvenda-se em mil cruzamentos
O reino das almas sem trono
Que a dúvida invade.
São milhas a perder de vista
De estradas abertas
No chão das escolhas incertas,
No chão da conquista,
E as horas circulam sem conta
Por todas as horas de ponta;
São sonhos em estado de alerta
Nas curvas da pista.
27/03/2010
15:15
Com tinta invisível,
Manchadas da cor combustível
Na berma entornada;
Percorre-as o ser indisposto
Do medo estampado no rosto,
Da dúvida presa, indizível
À boca fechada.
À margem tropeça a vontade
Por trilhos sem dono
E o cheiro da tinta sem sono
Polui a cidade
Das sendas, dos arruamentos;
Desvenda-se em mil cruzamentos
O reino das almas sem trono
Que a dúvida invade.
São milhas a perder de vista
De estradas abertas
No chão das escolhas incertas,
No chão da conquista,
E as horas circulam sem conta
Por todas as horas de ponta;
São sonhos em estado de alerta
Nas curvas da pista.
27/03/2010
15:15
quinta-feira, março 25, 2010
O Cabo do Coração.
Além dos sonhos devassos,
Além do tempo sozinho;
Um corpo feito em pedaços
Que amontoam nos espaços
O seu desfeito caminho.
Além-mar, além da terra,
Além da vida fechada;
Garganta que brame e que berra
No desespero da guerra
P'ra que partiu enganada.
Além dos credos da gente,
Além do véu dos segredos;
Um homem de alma temente
Reza ao destino inclemente
Com a miséria entre os dedos.
Além do pouco que sobra,
Além da própria razão;
A juventude que cobra
Uma virtude que dobra
O cabo do coração.
25/03/2010
15:03
Além do tempo sozinho;
Um corpo feito em pedaços
Que amontoam nos espaços
O seu desfeito caminho.
Além-mar, além da terra,
Além da vida fechada;
Garganta que brame e que berra
No desespero da guerra
P'ra que partiu enganada.
Além dos credos da gente,
Além do véu dos segredos;
Um homem de alma temente
Reza ao destino inclemente
Com a miséria entre os dedos.
Além do pouco que sobra,
Além da própria razão;
A juventude que cobra
Uma virtude que dobra
O cabo do coração.
25/03/2010
15:03
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