sexta-feira, janeiro 30, 2015

Camuflagem

Não são sábias as palavras que digo
Nem se afiguram de rara beleza;
Palavras sem sabor e sem certeza
Nascidas dos vãos dias que mastigo;

Palavras com que o silêncio castigo
Em sílabas que entoo com rudeza;
Não são senão de mim mesmo a fraqueza
Sem nada além de mim trazer consigo.

É própria das palavras esta essência
De usar cada qual a sua linguagem
Ainda que aparentem coerência...

Uma sofisticada camuflagem
Perante a solidão da existência
Que dela nos esconde entre a folhagem.

30/01/2015
11:03

sexta-feira, novembro 07, 2014

Caixa de fósforos.

Não consigo odiar ninguém. Mesmo que por vezes, por convenção ou circunstância, tente fazê-lo, o ódio que em mim se acende é como um fósforo, efémero, uma ténue chama que se extingue ao mais leve sopro ou abanão. Mais duradouras são as cinzas que ficam, frias, gélidas, prova material da fugaz presença de uma chama que se consumiu um vão. Permanecem algum tempo no meu chão, lembrando-me o instante em que sucumbi a sentimentos aversos, mas nunca chegam a amontoar-se, pois que se a chama perece na brisa suave, também as cinzas se dispersam no vento dos dias. Vencidas assim chamas e cinzas, resta apenas frio, ou melhor, um vazio de calor, uma flutuação local, um tremor quase imperceptível mas que em certas ocasiões ressoa na minha cabeça: "Odiaste!". É esta a marca que se agarra ao próprio corpo, o sinal indelével de um acto pecaminoso, odiar, que coisa feia, sem jeito, própria de homens maus.

E, contudo, falei de convenção e de circunstância, que é o mesmo que dizer o que é suposto e o que é instintivo, que é o mesmo que dizer o ódio que os outros esperam que eu sinta e o ódio que sinto quando os outros não sentem o que eu espero. Já experimentei ambos e são ambos inúteis, absurdos, chamas vãs e cinzas frias, nada acrescentam, nada ensinam, meros espasmos de alma.

Recordo-me, e por vezes ainda me deixo apanhar nessa armadilha, de sentir ódio por todos os políticos, entretidos nas suas perfídias, nos seus golpes, no seu desdém, nessa altivez rocambolesca que ostentam na falsidade dos fatos engomados e da presença constante em horário nobre, fabulistas perversos, sofistas, sacerdotes de um templo que mostra sinais de ruína, que ameaça abater-se sob o seu próprio peso, vil, pestilento, um dos maiores cancros da humanidade. Não que os odiasse deveras, numa animosidade convicta, mas evidentemente por convenção. Fossem outros os tempos, ou fosse outra a face da moeda em que me encontro, fosse a história uma outra história, enfim, fossem os homens homens melhores e melhores seriam também os políticos, os juízes, os banqueiros, os padres, os mecânicos de automóveis, as donas de casa e os traficantes de droga. Como todas as convenções, o ódio aos políticos é uma moda dos que não o são, dos que desejam sê-lo e não são capazes, dos que não abarcam a unidade complexa da nossa existência social, dos que se sentem injustiçados, e ainda dos que simplesmente não conseguem tomar para si qualquer responsabilidade sobre o mundo em que habitam.

Lembro-me também de, quando era criança, odiar alguns rapazes mais velhos que me atormentavam esporadicamente, mas neste momento em que recordo esses mesmos episódios, não encontro dentro de mim réstia sequer de rancor, nada, mera circunstância. Sempre, que odiei, fi-lo numa de duas modalidades, nenhuma das quais me sugere que tenha odiado verdadeiramente alguém, na sua plena acepção, apenas segui convenções e impulsos. Com o passar do tempo, as convenções foram-se revelando desinteressantes e as circuntâncias irrelevantes; os fósforos que agora acendo têm a madeira encharcada, ardem mal, são abortados à nascença. Não que o escolha conscientemente, é simplesmente assim: não sei odiar, não quero odiar, não encontro sentido nem proveito no ódio. E sinto-me bem com isso.

Gostava tanto de ser capaz de escrever numa expressão matemática ou numa receita como desconstruir o instinto de odiar, para que outros encharcassem os seus fósforos e as suas chamas logo se extinguissem e as suas cinzas depressam esvoaçassem no vento dos dias e o frio que ficasse se amenizasse no contacto mornos com os demais. Não sei explicar em teoremas nem revelações proféticas, não tenho métodos certificados nem remédios milagrosos, mas tenho a experiência de que é real, de que é possível, de que é bom. Se não de explicar, que seja ao menos capaz de inspirar, de despertar outros seres para o ridículo que é odiar por convenção, para a barbaridade de odiar por circunstância, e para a desolação que imagino serem os ódios mais profundos e severos, aqueles cuja chama não será mais um fósforo mas uma tocha, uma fogueira, um incêndio que se apossa da alma inteira, e já não são umas poucas cinzas frias levadas no vento dos dias, mas um mundo demolido, carbonizado, com a vida por um fio entre escombros estéreis e inóspitos. Esse é o maior perigo dos ódios-fósforo: um dia, há um que cai ainda aceso, quente, no bosque virgem da alma, e logo o incendeia implacável.

30/10/2014
11:55


terça-feira, outubro 14, 2014

Quadras de Cordel.

Estas quadras de cordel
Tão singelas que escrevi,
P'ra que saltem do papel
Vou recitá-las aqui.

Mas não julguem imodéstia
Nem pretensão de louvoures;
Não sofro dessa moléstia
Que assola tantos doutores.

Não busco glórias nem fama
Ao escrevinhar tais quimeras,
Nem quando a boca declama
As minhas quadras sinceras.

Junto palavras vulgares
Mais dois ou três pormenores;
Nascem quadras populares
Em redondilhas maiores.

Cruzada componho a rima,
O poema assim norteio:
Rima abaixo, rima acima,
Chega até rimar no meio.

Pois senão veja esta estrofe,
Atenção a cada linha;
Pense agora, filosofe,
Está na hora d'adivinha.

Qual é coisa, qual é ela,
Redonda como um tostão?
Pense bem, tome cautela,
Abre e fecha sem cordão.

E assim com este remate
Vos deixo p'ra meditar.
Abre-se a mesa ao debate.
Qual de vós quer começar?

14/10/2014
11:41

domingo, agosto 31, 2014

Em coro...

Volvidos vinte e cinco anos de vida,
Medito em tudo quanto me passou;
Do que me entristeceu e me alegrou
Recordo-me com sede desaurida.

Àqueles que, de forma engrandecida,
Partilham com seu ser do ser que sou,
P'lo jeito seu de amar quem os amou,
A gratidão em mim não tem medida.

As paixões que me habitam, poesias
Que oscilam entre assombro e lenidade
Na dança compassada dos meus dias

Sublimam-se nos coros da amizade
Compondo as mais sinceras harmonias
Em partituras de amor e saudade.

31/08/2014
12:12

quarta-feira, junho 11, 2014

Fugidio.

Esse amor que me é negado
É da minh'alma inimigo;
Expiação de um meu pecado;
Dos meus crimes o castigo.

Esse amor que me recusas
Ante os meus pedidos vãos
Agita chamas confusas
No lume das minhas mãos.

Esse amor que não se entrega
É o maior dos meus trabalhos;
Frenesim que não sossega;
Faz-me os cabelos grisalhos.

Esse amor que me persegue
Mas não se deixa prender
Anda a ver se me consegue
Finalmente enlouquecer.

Esse amor 'inda há-de ser
O mais fecundo pomar
E o que dele há-de nascer
Nossa fome há-de matar.

Havemos de amar um dia
Esse amor que hoje rejeitas;
Se esqueceres a teimosia
Ganha o amor, contas feitas.

11/06/2014
21:57

sábado, maio 17, 2014

Palavra Amor

A túrgida palavra que me habita
Banal, mas inflamada de magia,
Agita-se ao sabor da ventania
E, à espera do momento certo, hesita;

Dotada de paciência infinita
Inquieta-se, porém, de cobardia
E oculta-se no ventre da poesia:
Ao mundo assim se dá, palavra escrita.

Porém, onde ali esconde a sua face,
Se um verso houvesse apenas pecador
Que o véu onde se abriga destapasse

Bastava pr'a que, enfim, desse rumor,
A tímida feição se revelasse,
Sublime de emoção: palavra amor.

17/05/2014
13:44

quarta-feira, maio 14, 2014

Procurar-te é o meu fado...

Mote:
Não te encontro em nenhum lado
Mas nalgum lado hás-de estar;
Procurar-te é o meu fado,
Canto só p'ra te encontrar.



I
Vi num sonho essa miragem
E qual fiel peregrino
Dela fiz o meu destino,
Não mais conheci paragem.
Desde então estou de viagem,
Vivo num sonho acordado
Buscando o rosto corado
Que vislumbrei certa hora.
Por que te escondes senhora?
Não te encontro em nenhum lado...

II
Corri matas, galguei estradas,
Bati vales e montanhas,
Não me poupei em façanhas
P'ra ver-te as faces rosadas;
Repeti-me em abaladas
Com um prazer invulgar;
No furor de te abraçar
Deixei p'ra trás tudo o mais...
Nunca de ti vi sinais
Mas nalgum lado hás-de estar.

III
Do meu peito foi brotando
Uma canção quase prece
E só cantá-la enternece
Os dias que vão passando;
Dias, semanas buscando
Esse tesouro sonhado,
A cantar sigo encantado
De esperança fugidia
Afirmando noite e dia:
Procurar-te é o meu fado.

IV
Hoje por vezes duvido,
Julgo que é vã a procura,
Mas se adivinho a doçura
Do teu olhar prometido
Entre olhares sem sentido
Nalgum ditoso lugar,
Corro p'ra ti a cantar
Pelos céus abençoado;
Até lá, se canto o fado,
Canto só p'ra te encontrar.

14/05/2014
13:10