terça-feira, outubro 14, 2014

Quadras de Cordel.

Estas quadras de cordel
Tão singelas que escrevi,
P'ra que saltem do papel
Vou recitá-las aqui.

Mas não julguem imodéstia
Nem pretensão de louvoures;
Não sofro dessa moléstia
Que assola tantos doutores.

Não busco glórias nem fama
Ao escrevinhar tais quimeras,
Nem quando a boca declama
As minhas quadras sinceras.

Junto palavras vulgares
Mais dois ou três pormenores;
Nascem quadras populares
Em redondilhas maiores.

Cruzada componho a rima,
O poema assim norteio:
Rima abaixo, rima acima,
Chega até rimar no meio.

Pois senão veja esta estrofe,
Atenção a cada linha;
Pense agora, filosofe,
Está na hora d'adivinha.

Qual é coisa, qual é ela,
Redonda como um tostão?
Pense bem, tome cautela,
Abre e fecha sem cordão.

E assim com este remate
Vos deixo p'ra meditar.
Abre-se a mesa ao debate.
Qual de vós quer começar?

14/10/2014
11:41

domingo, agosto 31, 2014

Em coro...

Volvidos vinte e cinco anos de vida,
Medito em tudo quanto me passou;
Do que me entristeceu e me alegrou
Recordo-me com sede desaurida.

Àqueles que, de forma engrandecida,
Partilham com seu ser do ser que sou,
P'lo jeito seu de amar quem os amou,
A gratidão em mim não tem medida.

As paixões que me habitam, poesias
Que oscilam entre assombro e lenidade
Na dança compassada dos meus dias

Sublimam-se nos coros da amizade
Compondo as mais sinceras harmonias
Em partituras de amor e saudade.

31/08/2014
12:12

quarta-feira, junho 11, 2014

Fugidio.

Esse amor que me é negado
É da minh'alma inimigo;
Expiação de um meu pecado;
Dos meus crimes o castigo.

Esse amor que me recusas
Ante os meus pedidos vãos
Agita chamas confusas
No lume das minhas mãos.

Esse amor que não se entrega
É o maior dos meus trabalhos;
Frenesim que não sossega;
Faz-me os cabelos grisalhos.

Esse amor que me persegue
Mas não se deixa prender
Anda a ver se me consegue
Finalmente enlouquecer.

Esse amor 'inda há-de ser
O mais fecundo pomar
E o que dele há-de nascer
Nossa fome há-de matar.

Havemos de amar um dia
Esse amor que hoje rejeitas;
Se esqueceres a teimosia
Ganha o amor, contas feitas.

11/06/2014
21:57

sábado, maio 17, 2014

Palavra Amor

A túrgida palavra que me habita
Banal, mas inflamada de magia,
Agita-se ao sabor da ventania
E, à espera do momento certo, hesita;

Dotada de paciência infinita
Inquieta-se, porém, de cobardia
E oculta-se no ventre da poesia:
Ao mundo assim se dá, palavra escrita.

Porém, onde ali esconde a sua face,
Se um verso houvesse apenas pecador
Que o véu onde se abriga destapasse

Bastava pr'a que, enfim, desse rumor,
A tímida feição se revelasse,
Sublime de emoção: palavra amor.

17/05/2014
13:44

quarta-feira, maio 14, 2014

Procurar-te é o meu fado...

Mote:
Não te encontro em nenhum lado
Mas nalgum lado hás-de estar;
Procurar-te é o meu fado,
Canto só p'ra te encontrar.



I
Vi num sonho essa miragem
E qual fiel peregrino
Dela fiz o meu destino,
Não mais conheci paragem.
Desde então estou de viagem,
Vivo num sonho acordado
Buscando o rosto corado
Que vislumbrei certa hora.
Por que te escondes senhora?
Não te encontro em nenhum lado...

II
Corri matas, galguei estradas,
Bati vales e montanhas,
Não me poupei em façanhas
P'ra ver-te as faces rosadas;
Repeti-me em abaladas
Com um prazer invulgar;
No furor de te abraçar
Deixei p'ra trás tudo o mais...
Nunca de ti vi sinais
Mas nalgum lado hás-de estar.

III
Do meu peito foi brotando
Uma canção quase prece
E só cantá-la enternece
Os dias que vão passando;
Dias, semanas buscando
Esse tesouro sonhado,
A cantar sigo encantado
De esperança fugidia
Afirmando noite e dia:
Procurar-te é o meu fado.

IV
Hoje por vezes duvido,
Julgo que é vã a procura,
Mas se adivinho a doçura
Do teu olhar prometido
Entre olhares sem sentido
Nalgum ditoso lugar,
Corro p'ra ti a cantar
Pelos céus abençoado;
Até lá, se canto o fado,
Canto só p'ra te encontrar.

14/05/2014
13:10

terça-feira, maio 13, 2014

Prece ao Poeta

A voz de todo o poeta
Nasce e morre por inteiro
Nasce de sonhos repleta
E morre em seu cativeiro

Alma elevada e sublime
Logra do mundo o mistério
Nele se apoia e se exprime
Dele erige um novo império

Desta obra-prima do mundo
Exalta-se o seu sentir
E nesse êxtase rotundo
Cego, vislumbra o porvir

Poeta que sois rendido
À graça da Criação
Dai-nos o sonho perdido
Guiai-nos, dai-nos a mão

13/05/2014
21:07

domingo, janeiro 26, 2014

Romance dos Passos


Ali vai ele num passo desamparado;
Parece até que voa sobre o empedrado...
E as ruas tortas desta cidade às direitas,
Sejam largas ou estreitas,
Percorre sempre apressado.

Ali vem ela muito certa na passada;
A ninguém deve nem ninguém lhe deve nada...
E as ruas todas apreciam os passinhos
Mimosos, aprumadinhos,
Com que ela pisa a calçada.

Vai ele então nessa desalmada corrida
E nem abranda quando chega à avenida;
Faz uma finta, quase derruba um letreiro;
Talvez fora mais certeiro
Fosse o primeiro na vida.

E ora vai ela descendo o mesmo passeio
E sem razões para alentar algum receio
Segue ligeira numa marcha distraída,
Satisfeita na descida,
Sem olhar o passo alheio.

Galgam os dois o seu caminho em contramão,
Inconscientes em rota de colisão.
Enquanto vai ela julgando estar segura,
Outra incauta criatura
Investe-lhe um encontrão.

A multidão em roda viva nem repara;
Para intervir no sucedido ninguém pára.
Somente aos dois cabe resolver a questão:
Ela atónita no chão
E ele de espanto na cara.

Ali está ele morto de constrangimento
E estende a mão num gesto de arrependimento;
No seu olhar revela tímido embaraço
E treme-lhe até o braço
Que se estica em salvamento.

Ali está ela pasmada deste sarilho
De olhos capazes de esganar o empecilho,
Esse diabo que lhe apareceu à frente
No meio de tanta gente
E a lançou sobre o ladrilho.

Está ele então na tentativa de resgate
E ela indignada pelo furioso embate...
Maldita a hora que estes dois foram escolher,
Quem havia de dizer
Que iria dar disparate?

Muito senhora de si mesma se levanta
Ela e o moço desata o nó à garganta:
«Por favor queira desculpar esta rudeza
E a minha vil natureza
Que à senhora desencanta.»

Verdade seja dita que ambos são culpados
De assim trazerem os passos desencontrados;
Se porventura ele tivesse mais cautela
Talvez tivesse sido ela
A falhar nos seus cuidados.

Se ele foi bruto não foi ela mais zelosa,
Mas dito e feito é ela que está furiosa.
Olham-se os dois, cada qual à sua maneira,
Dois lados da mesma asneira:
Um repeso, outra queixosa.

Se o episódio terminasse assim suspenso
Era o destino destes dois um contrassenso...
Ali detidos no fulgor daquele olhar,
Nova história a começar,
Fica o relato mais denso.

Ele duvida e ela hesita impaciente;
Ela não sabe e já sabe ele o que ela sente...
Desculpa aceite, cada um segue o caminho,
Ela só e ele sozinho,
Resolvido o incidente.

Mas sobrevive na memória aquele enredo
Como um tesouro que se mantém em segredo;
Aquele olhar aterrador nessa emboscada
Deixou marca tão vincada
Que mais parece bruxedo.

Não tarda que ambos, de regresso às caminhadas
Vejam de novo as suas direcções cruzadas;
Cruzam-se os passos e nesse caso bicudo
Os olhares dizem tudo
Nas suas vozes caladas.

Logo irá ele cortejá-la com doçura
Num passo curto que não quebre a compostura;
Parece ele outro com seus pezinhos de lã
E os olhos cor de avelã,
Fazendo boa figura.

Depois irá ela jogar às escondidas
Numas passadas muito largas e atrevidas...
E quem os vir julgará ver duas crianças
Afoitas em contradanças
Por todas as avenidas.

Será por força do destino ou mera sorte
Que nasce assim nos dois uma paixão tão forte?
Já que há razões que a própria razão desconhece,
Saibamos do que acontece
Tirar o que mais importe.

Que a gente esteja sempre atenta ao pormenor
E não se julgue tão depressa um dissabor:
A gente segue uma ilusão e não pondera
Que quando menos se espera
Tropeça a gente no amor.

26/01/2014
18:40